Tag: Soneto

  • Morfologia de um eclipse (ou a paixão segundo Arjuna)

    Morfologia de um eclipse (ou a paixão segundo Arjuna)

    Repara dentro de si, espírito ninfeu!
    As brumas de espinho revelam amor,
    As rosas negras que se parecem dor,
    O perfume de vida que exala do heu.

    Faça-te sol na minha tempestade!
    Encontre em ti o espírito que é meu,
    A lâmina que o próprio destino teceu:
    Védicos encantos que uivam verdade.

    Como homem, sou destruidor de mundos;
    Como amante, o reinventor da realidade.
    Vivo para tocar o que sempre procuro:

    A volúpia nua dos teus lábios de deidade.
    Sou seu candeeiro que habita o escuro
    E a luz que busco é sua etérea beldade.

    A distância te leva à alcatéia das feras,
    Mas sou a prata que lhe devolve a humanidade.

  • Clarice (a Lispector, com carinho)

    Clarice (a Lispector, com carinho)

    Transgredi a cela da vida contingente,
    Vaguei no encanto e não me perdi
    Vi, no mundo, um caminhar penitente,
    As iridescentes algemas do agora e aqui

    Vivi mil vidas em meu cárcere de carne,
    Todas escritas sob meu olhar decumbente
    A léxica magia era minha ígnea arte,
    O sopro de vida sobre a morte eminente

    E agora que sou um corpo sem corpo,
    A rima fugaz de uma poesia já lida,
    Embora seja um livre imorredouro

    No etéreo passeio sem volta nem ida
    Se um dia pensei que liberdade era pouco
    Apelido o que sonhava com o nome de vida