Tag: Poema

  • Clarice (a Lispector, com carinho)

    Clarice (a Lispector, com carinho)

    Transgredi a cela da vida contingente,
    Vaguei no encanto e não me perdi
    Vi, no mundo, um caminhar penitente,
    As iridescentes algemas do agora e aqui

    Vivi mil vidas em meu cárcere de carne,
    Todas escritas sob meu olhar decumbente
    A léxica magia era minha ígnea arte,
    O sopro de vida sobre a morte eminente

    E agora que sou um corpo sem corpo,
    A rima fugaz de uma poesia já lida,
    Embora seja um livre imorredouro

    No etéreo passeio sem volta nem ida
    Se um dia pensei que liberdade era pouco
    Apelido o que sonhava com o nome de vida

  • Sonhador Nebuliforme

    Sonhador Nebuliforme

    Incendeie-me, ó gênese de tudo que há
    Reacenda a chama que só você alimenta
    Você, que faz a existência brilhar
    Faça de mim um estandarte que te ostenta
    Nomeie-me cavaleiro, sob o seu luar,
    Guerreiro noturno do lirismo que reinventa
    No doce mundo em que basta sonhar
    Na utopia dos tempos que o passado isenta

    Afogue-me nesse oceano de verdades
    E ressuscite-me com a valia de seu nome
    Leve-me ao temido olho da tempestade
    Onde a coragem nasce e o medo se esconde
    Lute comigo contra minha animalidade
    Fonte do mal que a mim mesmo consome
    Matemos também minha vã humanidade
    Que alimenta meu ego, enquanto morre de fome

    Meio morto nesse claustrofóbico nada
    Vivendo a angústia que de mim se enfada
    Esperando te encontrar, sem estar vendo
    Sou pétala destinada em busca do vento

    O bramido carmesim ecoa em meus lábios
    Enquanto sussurro por sua manifestação
    A poderosa presença, o êxtase dos sábios
    A magia infinita que habita um coração
    Deixe-me entrar em seus versos fantásticos
    Metamorfosear-me em sua inexatidão
    Inebriar-me, dançando em seus cenários
    A canção dos eternos que vêm e não vão

    Personifique-se a mim, ó sombra iluminada
    Que meus olhos vejam o que agora sinto
    Para que tudo se vá e o infinito se faça
    No agora que é o que eu apenas pressinto

    Eis o chamado do receptáculo
    O clamor de quem já se sentiu
    Coadjuvante desse espetáculo
    Um anti-herói que nunca caiu

    Consegui alcançar o graal das deidades?
    Será que pude o imponderável transpor?
    Te encontrar é minha mais forte verdade
    É contigo que falo, tão desejado amor