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  • Hoje é o Último Dia do Resto da Sua Vida: punk, sobrevivência e a não-catarse

    Hoje é o Último Dia do Resto da Sua Vida: punk, sobrevivência e a não-catarse

    Ler a graphic novel de Ulli Lust é ser tragado por uma crônica de brutalidades e afetos dilacerados, um romance de formação onde a formação nunca se completa. Não há amadurecimento no sentido tradicional, tampouco aquele “crescimento” que a literatura gosta tanto de aplaudir, e que desde o Bildungsroman alemão, de Goethe a Thomas Mann, nos acostumou a esperar como recompensa por acompanhar um protagonista até o fim. O que há aqui é a exposição nua de uma juventude que se recusa a obedecer a qualquer roteiro civilizatório: uma não-catarse, ou melhor, uma anticatarse: porque Aristóteles previa a purgação das emoções como função da tragédia, e Lust não purga nada. Ela acumula. Ela infecta.

    E como poderia ser diferente? A protagonista e autora, que decide atravessar a Europa à deriva, não está em busca de autoconhecimento ou transcendência, como os beatniks de Kerouac. Não há aqui o mito da estrada como metáfora redentora. Não há o “Na Estrada” que, no fundo, ainda é uma odisseia masculina e romantizada do movimento como liberdade. Há apenas a estrada como realidade, e ela é poeira, suor, fome, estupro e, paradoxalmente, liberdade. Uma liberdade que não redime, não conclui, não justifica. Simplesmente existe.

    O traço expressivo de Ulli Lust reforça isso: não quer ser bonito, quer ser verdadeiro. E é. Feio, rude, honesto, tal como a vida, sabe? Há algo de Egon Schiele nessa recusa estética à beleza confortante, nessa insistência em desenhar o corpo humano em sua precariedade, em sua exposição, sem a mediação tranquilizadora da idealização.

    Juventude sem aprisco: exílio voluntário ou fuga desesperada?

    É tentador (sempre é) interpretar trajetórias como a de Ulli através da ótica da fuga. Afinal, sair de casa aos dezessete anos, cruzar fronteiras sem dinheiro, comer restos, dormir ao relento, submeter-se a perigos… tudo isso parece gritar: “ela fugiu”. Mas será? Ou terá ela recusado o aprisco? O abrigo seguro, acolchoado, onde as instituições moldam corpos e mentes para que obedeçam, calem, se acomodem.

    Aqui vale trazer Michel Foucault, não como ornamento teórico, mas como lente legítima: as instituições que Lust recusa (a família, a escola, o Estado que exige documentos e endereços) são, na análise foucaultiana, dispositivos de controle que operam precisamente pela normalização dos corpos. Ao se lançar à estrada sem documentos, sem dinheiro, sem pertencimento, Ulli Lust não desaparece do poder, ela o enfrenta em sua forma mais crua, a violência direta, sem a mediação burocrática que o torna palatável. O estupro que sofre não é uma aberração no sistema, é o sistema sem máscara.

    Recusar o aprisco, portanto, não é um ato passivo, nem simplesmente reativo. É uma afirmação radical que lembra o conceito deleuziano de “linha de fuga”, não uma fuga de algo, mas um movimento em direção a um devir que as estruturas dominantes não conseguem capturar. Prefiro o desabrigo ao conforto condicionado. Prefiro o risco à segurança entorpecente. Prefiro a possibilidade de não voltar viva à certeza de nunca ter vivido de fato.

    E aí reside a potência política desta obra: não na denúncia direta ou panfletária, mas na simples e corajosa recusa.

    O corpo como estrada e como ruína

    Poucos livros, e menos ainda graphic novels, ousaram ir tão longe na exposição do corpo como espaço narrativo total. Não é só sobre sexo, embora ele esteja ali, despudorado e, por vezes, brutal. É sobre como o corpo se converte no único meio de troca, no único abrigo possível, no único documento válido.

    Nesse sentido, Hoje é o Último Dia do Resto da Sua Vida dialoga — sem o saber ou sem precisar saber — com a tradição das narrativas de mulheres que escrevem o corpo como território político: de Anaïs Nin, que fez do erotismo uma cartografia da subjetividade feminina, a Virginie Despentes, que em “Teoria King Kong” transformou a experiência do estupro e da marginalidade em manifesto. Lust está nessa linhagem, mas sem o enquadramento teórico de Despentes e sem o lirismo de Nin. Ela é mais crua do que ambas e, talvez, justamente por isso, mais difícil de digerir.

    Ulli Lust desenha a si mesma como quem se escreve com uma navalha: cada linha é uma cicatriz. Seu corpo é passaporte e prisão, território e ruína. Na ausência de dinheiro, de casa, de proteção, o corpo é o que resta e o que sobra. Ele circula, se oferece, se impõe e se esgota.

    Mas, ao contrário do que o moralismo poderia sugerir, não há aqui espaço para o vitimismo fácil. A narrativa é frontal, sem ornamentos, recusando qualquer sentimentalismo — o que a aproxima, na postura ética, do jornalismo literário de Joan Didion: “Nós nos contamos histórias para viver”, escreveu Didion, mas Lust parece nos dizer que algumas histórias recusam ser contadas para viver. Existem apenas para atestar que se viveu.

    Arte que não quer ser consolo: o livro como desafio

    É comum que livros sobre juventudes “perdidas” tentem, ao final, oferecer alguma forma de consolo: uma lição aprendida, um caminho encontrado, uma redenção, o momento catártico que Aristóteles prometeu e que o mercado editorial transformou em fórmula. Ulli Lust não entrega nada disso. Ao fim, resta o incômodo. E ele é, talvez, o mais necessário dos sentimentos.

    A arte aqui não é aprisco nem antídoto. Ela é — e aqui o título deixa de ser apenas poético para se tornar filosófico — um lembrete existencial da tradição que vai de Epicuro a Camus: não há amanhã garantido, não há sentido que nos seja dado de fora, não há roteiro. O existencialismo sartreano diria que a existência precede a essência, que nos tornamos o que somos pelo que escolhemos fazer. Lust faz uma versão punk e feminina disso, sem o conforto da filosofia de salão.

    O título já avisa: hoje é o último dia do resto da sua vida. Não amanhã. Não depois. Não quando você finalmente encontrar estabilidade emocional, financeira ou espiritual. Hoje. E ponto.

    O que resta, então?

    O incômodo, o desconforto, a lembrança de que muitos de nós aceitamos o aprisco e seguimos a vida sem sequer perguntar se poderíamos ter escolhido o desabrigo.

    Fechar essa graphic novel não é um alívio, é um chamado. Ou talvez, para alguns, um alerta. Porque sim, talvez o maior risco de todos seja perceber que a segurança é uma ficção confortável, mas no fim tão ilusória quanto qualquer mapa que pretenda conter a vastidão imprevisível da existência humana. Borges, que adorava mapas que confundiam o território com a representação, aprovaria a metáfora.

    Recomendo essa leitura indigesta.

  • Grimpow e o Brilho da Sabedoria: Uma Jóia Esquecida da Literatura Fantástica

    Grimpow e o Brilho da Sabedoria: Uma Jóia Esquecida da Literatura Fantástica

    Provavelmente, ainda que seja um ávido leitor, você nunca ouviu falar de Rafael Abalos, o que é um erro que deve procurar corrigir imediatamente. O autor de uma obra que chegou a ser comparada com a opus magnum de Umberto Eco, “O Nome da Rosa” (1980), não deve ser ignorado, tampouco esquecido. E a comparação não é gratuita: assim como Eco construiu seu romance policial medieval sobre as ruínas simbólicas de Aristóteles e dos manuscritos proibidos de uma abadia beneditina, Abalos ergue o seu sobre os pilares igualmente sedutores da alquimia e da Ordem do Templo.

    Advogado e docente, Abalos deu forma a esse seu terceiro romance após uma viagem e longas conversas com amigos que também revelavam paixão inconteste pelo medievo e suas fantásticas histórias e mitos. Grimpow e o Caminho Invisível — também chamado de Grimpow, o Eleito dos Templários em algumas edições — é um romance que se erige sob mistérios e lendas fascinantes. Não um romance qualquer, eu já aviso.

    Um enredo acima da média, apesar de parecer mais do mesmo

    Grimpow é uma criança — ou adolescente? — proscrita que vive à companhia de seu amigo salteador Dúrlib e que, durante uma caçada para conseguir alimento, encontra o corpo morto de um ginete estirado sobre a neve. Antes de evanescer diante dos olhos assustados dos dois amigos, como brumas diante do nascer do sol, o cavaleiro morto deixa para eles uma pedra fantástica, um selo, uma adaga, moedas de ouro e uma carta cifrada. Este é o mote para as aventuras e tragédias que Grimpow enfrentará para desvendar a enigmática mensagem, para entender a magia por trás da chave dos mistérios que é a pedra que agora carrega no peito e para encontrar o Caminho Invisível e o segredo dos sábios.

    A premissa remete, inevitavelmente, ao Parsifal medieval — o jovem ingênuo que, por acidente do destino, se vê enredado numa demanda maior do que si mesmo — e há ecos claros da Demanda do Santo Graal na jornada de Grimpow: a busca por um objeto de poder oculto, guardado por uma ordem secreta, permeada por provações morais e intelectuais. Abalos, no entanto, retrabalha esse arquétipo sem se render ao lugar-comum. Diferentemente do herói tolkieniano — que cresce em poder físico e moral para enfrentar o mal — Grimpow cresce em inteligência e conhecimento, o que torna sua trajetória mais socrática do que épica.

    Embora o protagonista seja apenas um menino, a trama está completamente incólume à ingenuidade e sutilezas que se esperaria para um herói mirim. Se você torcer o volume de páginas, é perigoso escorrer sangue do livro. Grimpow vê coisas que fariam com que qualquer criança, adolescente — e mesmo um adulto — de nossa asséptica realidade entrasse num profundo TEPT, mas que não o debilitam ao ponto de fazer com que abandone a missão que o adotara. Com um assombroso poder dedutivo, ele fica ainda mais arguto após tomar posse da pedra, a qual parece “iluminar” sua inteligência, numa clara alusão ao lapis philosophorum da tradição alquímica, a pedra filosofal que não transforma apenas metais vis em ouro, mas também o espírito do portador.

    Personagens memoráveis

    Outros personagens fazem com que você se apaixone completamente pela trama. Dúrlib, o “tutor” proscrito que inicia as aventuras com Grimpow, tem algo do Sancho Pança cervantino, a lealdade rústica e genuína que contrasta com o idealismo do companheiro mais jovem. Os monges da Abadia de Brínkdum, cada qual com uma importância fundamental para o desdobramento da história, lembram a galeria de eclesiásticos que povoam O Nome da Rosa: personagens que guardam o conhecimento como quem guarda uma chama, com devoção e com medo de que ela queime.

    Salietti de Estaglia, cavaleiro que se propõe a seguir Grimpow em sua jornada e que guarda um passado profundamente ligado ao presente do menino, carrega aquele tipo de melancolia nobre que encontramos em figuras como Lancelot, o guerreiro que serviu a causas maiores do que si mesmo e carrega o peso disso. Já Búlvar de Góztell, inquisidor sanguinário que faz o escarcéu para conseguir o segredo dos sábios a mando do Papa — aliando-se ao Barão Figüeltach de Vokko e ao Rei da França —, é um antagonista que rivaliza com o Jorge de Burgos de Eco em implacabilidade, com a diferença de que Búlvar representa não o fanatismo intelectual, mas o fanatismo do poder.

    Além deles, temos a Weienell, mulher de fascinante beleza, filha de um dos sábios e importante aliada às traduções simbólicas que Grimpow tem de fazer nos “finalmentes” do enredo. Ela ocupa, na estrutura narrativa, um papel próximo ao que Camille Paglia chamaria de femme fatale redimida: a mulher que detém um saber proibido e o usa não para destruir, mas para iluminar.

    Uma fantasia embebida pelo puro suco da semiótica e pelo uso impecável de figuras de linguagem

    Assim como O Nome da Rosa, Grimpow conta com um vasto repertório semiótico que ajuda a construir os enigmas e códigos que perpassam toda a história, desde os textos criptografados, passando pelos puzzles que os heróis encontram pela frente, até os símbolos que norteiam o Caminho Invisível e a sociedade secreta dos sábios, a Ouroboros. O próprio nome da sociedade é um signo poderoso: a Ouroboros, a serpente que devora a própria cauda, é um dos símbolos mais antigos da humanidade, presente desde o Egito faraônico e sistematizado pelos alquimistas medievais para representar a eternidade, o ciclo do conhecimento que jamais se encerra. Abalos não escolheu esse nome por acidente.

    Todo ponto decisivo da história é cerceado por quebra-cabeças linguísticos e lógicos muito bem arquitetados, que lembram os enigmas propostos por Raymond Lull e pelos cabalistas medievais, a ideia de que a linguagem não é apenas um veículo de comunicação, mas um mapa do cosmos. Em termos peirceianos, os signos em Grimpow funcionam nos três registros: o ícone, o índice e o símbolo se entrelaçam de tal forma que o leitor, inevitavelmente, se vê compelido a ajudar os protagonistas a encontrarem a solução de cada desafio.

    Não bastasse a bela estruturação criada por Abalos para dar fluidez ao saboroso fado do herói, a obra goza de uma maravilhosa coleção de figuras de linguagem que a fazem parecer uma verdadeira odisseia poética. Um texto banhado no ouro das metáforas, o que é, por si só, uma metalinguagem elegante numa história sobre alquimia.

    Definitivamente, diferente e apaixonante

    Apesar de lembrar a narrativa dos contos de cavalaria — de Chrétien de Troyes a Wolfram von Eschenbach —, a obra possui a dinâmica de romances modernos. Chega a ser romântico, mas de forma alguma pode ser considerado pedante ou melífluo demais. Ao contrário da maioria dos épicos que temos visto serem lançados atualmente, Grimpow abre mão da receita dragão/trono/guerra/amoricos para nos fazer refletir sobre a importância do conhecimento e o perigo da religiosidade cega (um tema que ecoa tanto nas Epistulae morales de Sêneca quanto no projeto iluminista que viria séculos depois). Tanto que, muitas das vezes, o protagonismo se transfere do personagem para o tema ou a trama.

    Não é mais um livro sobre cavaleiros, donzelas, dragões e a noção mística de magia, mas um elogio à magia que é deter o conhecimento, no melhor espírito do Sapere aude kantiano, o convite à coragem de pensar por conta própria. A tradução de Luís Carlos Cabral é fabulosa, conseguindo manter a beleza e os signos presentes na versão original, em espanhol. Li a primeira edição, pela Ediouro, cuja capa é a mais bonita na minha opinião.

    É bem provável que você, que sofre da Síndrome de Westeros, não se interesse muito por um romance menos afortunado midiaticamente. Garanto, porém, que ler Grimpow te trará uma nova luz acerca deste tipo de literatura e, talvez, te faça perceber que o medievo que você tanto ama nunca foi sobre tronos e batalhas, mas sobre o que os homens foram capazes de buscar, esconder e morrer para preservar: o conhecimento.

  • Por que a Retrowave mexe tanto com a gente?

    Por que a Retrowave mexe tanto com a gente?

    “When you grow up, your heart dies.”

    “Quando você cresce, o seu coração morre”, em tradução livre. A frase dita por Allison Reynolds (Ally Sheedy) em Clube dos Cinco (1985), num sussurro que carrega a dor da adolescência engarrafada, tornou-se um mantra sombrio e universal. Recontextualizada na voz digitalizada de Alex Westaway, da banda Gunship – expoente do retrowave, essa sentença abre a música de mesmo nome como uma chave de acesso àquilo que mais tememos: perder o que nos fazia vivos antes de aprendermos a nos comportar.

    Mas por que essa frase, solta no corredor de um colégio fictício ou replicada num synth etéreo, nos rasga por dentro?

    Porque ela fala de um luto silencioso. Um que não se veste de preto, mas de conformismo. Que não se anuncia, mas se infiltra. Fala do momento em que trocamos o risco pelo cálculo, o impulso pelo protocolo. Quando deixamos de dançar com o demônio só pelo prazer do movimento, e passamos a reparar se alguém está olhando.

    When You Grow Up Your Heart Dies, a música, transforma esse luto em trilha sonora de resistência. Uma ode ao que ainda pulsa, mesmo que abafado. Cada verso é um lembrete sutil de que, apesar das perdas, ainda podemos fabricar o épico com luzes falsas, ainda podemos encontrar sentido no som de sintetizadores rasgando o silêncio da maturidade.

    E é aí que entra o retrowave (um subgênero da música eletrônica que também é chamado de synthwave, outrun ou vaporwave – que também podem ser considerados subgêneros), esse som que mais parece um socorro estético vindo do passado para reanimar um presente desbotado.

    O futuro que nunca chegou

    A beleza do retrowave está no paradoxo: ele é um som de um passado que sonhava com o futuro. Quando ouvimos seus sintetizadores vibrantes, com arpejos que soam como uma ligação intergaláctica perdida, não estamos só evocando os anos 80, estamos mergulhando no imaginário de um futuro que prometia carros voadores, ciborgues poéticos e um romantismo digital em VHS.

    A trilha sonora de filmes como Blade Runner, Tron ou Fuga de Nova York formou o inconsciente sonoro de toda uma geração. Mas o retrowave não imita esses sons: ele os reinterpreta com a nostalgia consciente de quem sabe que aquilo nunca foi real. O que torna tudo mais real ainda. É o mito da memória emocional: lembrar do que nunca aconteceu, mas mesmo assim doer um pouquinho.

    Um cliffhanger sonoro

    Cada faixa de retrowave carrega um certo senso de inacabamento, como se estivéssemos sempre prestes a alcançar algo: uma lembrança, um lugar, um alguém. E é aí que entra o efeito cliffhanger: aquela sensação de suspensão, de algo que vai acontecer… mas não acontece. O beat cresce, os sintetizadores ganham corpo, há uma tensão melódica que promete uma explosão, uma resolução épica, mas o clímax se dissolve em delay e reverberação.

    Esse truque emocional nos prende. E como todo bom cliffhanger, nos faz voltar. Porque o cérebro detesta histórias mal resolvidas. E o coração, então? Vira refém.

    Neurociência da saudade sintética

    Estudos em neuroimagem já mostraram que a música ativa regiões como o hipocampo (memória), a amígdala (emoções) e o córtex pré-frontal medial (reflexão e identidade). Quando ouvimos retrowave, mesmo sem termos vivido os anos 80, nosso cérebro interpreta aqueles timbres granulados como algo familiar. Isso acontece porque a linguagem sonora da época foi introjetada culturalmente — via filmes, propagandas, desenhos, jogos — criando o que se chama de nostalgia aprendida.

    Ou seja: o retrowave é a trilha sonora de uma saudade que não é sua, mas que seu cérebro acredita que é. E sentir isso não é ilusão. É neurociência pura! É fácil construir uma memória afetiva depois que se inunda de um repertório altamente pregnante, como trilhas sonoras de filmes como Drive.

    Drive (2011) – de Nicolas Winding Refn

    Baudrillard e o fascínio pelo falso (que parece verdadeiro)

    O filósofo Jean Baudrillard definiu isso brilhantemente com o conceito de simulacro: cópias de algo que não tem um original. O retrowave, nesse sentido, não tenta reproduzir exatamente os anos 80, mas evocar uma ideia estilizada deles. Um passado idealizado, que nunca foi real, mas que nos emociona como se fosse. Porque ele oferece coerência estética emocional, e isso é mais poderoso que autenticidade factual.

    O prazer do retrowave não vem da lembrança literal. Vem do conforto de um mundo onde o drama tem trilha sonora, onde até a tristeza possui um gigantesco holograma neon sobre o impávido arranha-céu da nossa história.

    Dance music para introvertidos

    Há uma ironia bonita no retrowave: ele é música para dançar parado. Um som feito para te colocar em movimento interno. As batidas são hipnóticas, os timbres eletrônicos têm cheiro de ozônio e poeira, mas tudo isso pulsa dentro de uma caixa de vidro emocional. Você não sai correndo, você fecha os olhos.

    É por isso que tanta gente escuta retrowave sozinha, de fone, no quarto. É trilha sonora para caminhar por dentro de si com passos robóticos, mas sentimentos humanos demais. Uma rave de um só. Mas, como toda música que mexe com a alma, ela tem, sim, a capacidade de mexer com o corpo: daquele jeito desajeitado e pouco coordenado único.

    Frame do videoclipe da música LUZ, da banda brasileira de retrowave Amen Jr

    O cinema dentro da cabeça

    A psicologia moderna trabalha com a ideia do self narrativo, a noção de que nos percebemos como personagens de uma história. E o retrowave encaixa-se perfeitamente nesse modelo: é música que não apenas toca, mas te insere numa narrativa. Você não apenas escuta, você protagoniza. Torna-se, por alguns minutos, o herói de um filme que nunca foi feito, mas que sempre esteve em pré-produção na sua mente.

    É por isso que o cotidiano, sob o efeito retrowave, ganha textura de cena. Lavar a louça vira coreografia. Andar de ônibus vira perseguição dramática. Dirigir um carro vira uma epopéia cyberpunk. E a vida, ainda que medíocre, vira épica em looping analógico.

    Expectativa e tensão: o jogo emocional do “quase”

    A teoria da expectativa musical, formulada por Leonard Meyer e David Huron, diz que respondemos emocionalmente à música com base na antecipação e frustração de padrões. O retrowave domina esse jogo. Ele cria padrões melódicos que prometem explosão e entrega um fade out emocional. É como se o clímax estivesse sempre na curva seguinte da estrada sonora. Esse sentimento de “quase” mexe profundamente com o cérebro. Porque a antecipação constante gera dopamina. E o retrowave sabe brincar com ela melhor do que muito terapeuta.

    Estamos todos num videoclipe existencial

    O retrowave transforma nossa rotina ordinária num grande videoclipe existencial. É o fundo musical ideal para iniciar um dia de trabalho se sentindo um replicante, para tomar um banho como se estivesse sob a chuva difusa de um centro repleto de neón. Ele estiliza a realidade. Não resolve. Não responde. Mas pinta com néon nossos dias cinzentos. E, cá entre nós, isso já é muita coisa.

    No fim das contas, talvez gostemos tanto de retrowave porque ele nos devolve a estética da emoção. Porque cansa essa modernidade que quer explicar tudo, corrigir tudo, otimizar tudo. Às vezes a gente só quer sentir. Sentir de forma bela, exagerada e meio cafona mesmo.