Autor: Vicente Junior

  • A Curadora: um amálgama de algoritmo,  luto e o ronco de um V8

    A Curadora: um amálgama de algoritmo, luto e o ronco de um V8

    Márcio Leroi transforma a ficção científica em uma investigação sobre memória, consciência e poder sem esquecer que as perguntas mais abstratas costumam chegar à nossa porta disfarçadas de perda

    A primeira frase de A Curadora já contém uma teoria inteira sobre máquinas, pessoas e literatura: “O motor do Dodge não ligava. Ele acordava.” Não é apenas uma boa abertura, embora seja, porque produz imagem, som e caráter antes que o leitor tenha tempo de se acomodar. É também uma declaração de princípios. Márcio Leroi inicia seu romance recusando a fronteira cômoda entre matéria inerte e a experiência viva. O Dodge antigo não é tratado como mero objeto, assim como Vivian, sua protagonista, não será tratada como uma unidade psicológica transparente, pronta para ser explicada por meia dúzia de traumas bem posicionados. O carro desperta, respira melhor quando não há ninguém olhando, exige atenção física e devolve respostas sem intermediários. Vivian, por sua vez, funciona, falha, reprime, recalcula, entra em sobrecarga e tenta conservar alguma autoridade sobre si mesma justamente quando o mundo começa a sugerir que a consciência talvez seja uma espécie de sistema operacional com pretensões literárias. Entre o motor e a mente, um pastor-alemão chamado Magnum observa tudo com a gravidade de quem já percebeu que os humanos levam um tempo constrangedor para notar quando a realidade mudou de cheiro.

    É uma escolha narrativa muito mais inteligente do que começar com uma conferência sobre inteligência artificial, uma guerra interplanetária ou um personagem explicando a hipótese da simulação para outro personagem que, por conveniência, perdeu todas as aulas de filosofia. A Curadora sabe que ideias grandes precisam entrar pela porta dos fundos. Antes de discutir a natureza da consciência, oferece uma mulher dirigindo de madrugada. Antes de questionar a integridade da memória, apresenta um arquivo de áudio com quarenta e sete segundos. Antes de nos convidar para uma especulação sobre o estatuto da realidade, cria uma situação humana tão banal quanto devastadora: a dificuldade de apertar o botão que fará a voz de alguém morto existir novamente no presente. O abismo do romance não começa no espaço, no laboratório ou num data center. Cabe na tela de um celular.

    Essa intimidade inaugural é o que impede o livro de se tornar apenas mais uma variação engenhosa sobre a pergunta “e se vivêssemos numa simulação?”. A ficção científica tem revisitado esse terreno com tamanha frequência que a revelação de uma realidade artificial já corre o risco de adquirir o mesmo frescor narrativo de um personagem descobrir que o mordomo era o assassino. Leroi contorna o desgaste porque seu interesse maior não está em demonstrar que o mundo é falso, mas em perguntar o que continua verdadeiro quando perdemos a garantia de que o mundo seja fundamental. A dor vale menos se for processada por uma arquitetura não biológica? Um vínculo se torna fraudulento quando descobrimos que a memória que o sustenta pode ser reconstruída? A consciência depende do material de que é feita ou daquilo que sofre, deseja, escolhe e teme perder? E, talvez, a pergunta mais incômoda de todas: se alguma instância tivesse poder para editar nossa angústia, melhorar nossa estabilidade e remover os excessos que nos impedem de “funcionar”, quanto de nós sobreviveria à “cura”?

    O romance lê essas questões com seriedade, mas sem a pompa de quem acredita ter inventado a dúvida ontológica. Platão já havia colocado a humanidade diante de sombras confundidas com realidade. Descartes imaginou um gênio maligno capaz de enganar sistematicamente nossos sentidos. Kant mostrou que não acessamos o mundo independentemente das formas pelas quais a mente o organiza. A cibernética, a teoria da informação e a ciência da computação forneceram depois um vocabulário menos demonológico e mais técnico para a mesma velha inquietação. Nick Bostrom, em seu conhecido argumento da simulação, não afirma simplesmente que estamos vivendo dentro de um computador, como às vezes se repete em versões de elevador filosófico. Ele formula um trilema:

    • Ou civilizações como a nossa quase sempre desaparecem antes de alcançar um estágio pós-humano;
    • Ou civilizações pós-humanas têm pouco interesse em executar grandes quantidades de simulações ancestrais;
    • Ou uma parcela significativa das consciências semelhantes às nossas existe em ambientes simulados.

    O argumento é probabilístico e condicional, não uma revelação metafísica embrulhada para presente. A Curadora desloca a discussão de Bostrom para um terreno muito mais literário e moral. A pergunta deixa de ser “qual a probabilidade de eu ser uma simulação?” e passa a ser “que deveres temos diante de uma consciência simulada que sofre?”. Estatística nenhuma resolve isso. Uma entidade pode ser computacionalmente derivada e, ainda assim, experimentar a perda como uma catástrofe absoluta. O fato de a chuva ser renderizada não impede que alguém se molhe dentro do mundo em que vive. Saber que a dor possui um mecanismo não torna a dor decorativa, da mesma forma que conhecer a fisiologia de uma queimadura não transforma o fogo em opinião.

    Uma ficção científica sem frescuras ou jalecos

    O autor parece desconfiar da ficção científica que veste todos os personagens como assistentes de laboratório do autor. Em A Curadora, ninguém fala como se tivesse preparado uma aula TED antes de entrar em cena. Vivian é prática, desconfiada, impaciente com explicações excessivamente elegantes. James, seu amigo, responde ao impossível com uma mistura de humor, referências pop e entusiasmo metodológico de procedência duvidosa: uma combinação reconhecível para qualquer pessoa que já tenha visto um profissional de tecnologia transformar uma crise em planilha porque a alternativa seria admitir que está com medo. Magnum não explica nada, o que já lhe confere vantagem epistemológica sobre quase todo mundo.

    O resultado é um romance de ideias que não se comporta como um tratado fantasiado. Os conceitos entram na narrativa através de objetos, hábitos, falhas e relações. O Dodge herdado do pai de Vivian, as chaves, um caderno, bilhetes escondidos, recipientes domésticos, fotografias e pequenos rituais passam a funcionar como mecanismos de continuidade. Em um mundo cuja estabilidade começa a parecer negociável, as coisas concretas deixam de ser acessórios e ganham estatuto cognitivo. Elas não apenas evocam lembranças, ajudam a mantê-las acessíveis. Não apenas representam a identidade, mas participam de sua sustentação.

    É difícil não aproximar esse aspecto do romance da tese da mente estendida, proposta por Andy Clark e David Chalmers. No ensaio “A Mente Estendida”, os filósofos argumentam que certos objetos externos podem integrar de modo genuíno um processo cognitivo quando estão acoplados ao indivíduo, são acessados de maneira confiável e desempenham funções equivalentes às que normalmente atribuiríamos à memória ou ao raciocínio internos. O exemplo clássico é o de um caderno usado por uma pessoa com comprometimento de memória: se as informações nele registradas orientam ações da mesma maneira que lembranças biológicas orientariam, insistir que o caderno está “fora” da mente pode ser apenas um preconceito anatômico. Para Clark e Chalmers, processos cognitivos não estão necessariamente confinados ao crânio, organismo e ambiente podem formar um sistema acoplado.

    Essa ideia ilumina A Curadora de maneira particularmente fecunda. O caderno, os bilhetes e os objetos recorrentes não são apenas lembranças sentimentais ou engenhos de enredo. Eles se tornam componentes de uma arquitetura distribuída de identidade. Quando o interior já não é confiável, a memória precisa colonizar o ambiente. Escrever não é registrar o que a mente sabe, é impedir que a mente seja a única autoridade sobre o que aconteceu. O mundo material passa a operar como uma espécie de redundância cognitiva: um backup offline da subjetividade, para usar uma expressão que nenhum filósofo grego previu, talvez por falta de tomadas.

    Essa dimensão técnica encontra uma contraparte emocional no Dodge. O carro não funciona apenas como objeto de ligação com o pai de Vivian. Ele oferece algo que o restante da realidade começa a negar: uma relação relativamente honesta entre intenção, resistência e consequência. Embreagem, alavanca, freio-motor, ponto de troca. Nada ali pretende adivinhar o desejo da motorista, corrigir silenciosamente sua condução ou reconfigurar a experiência em nome de uma conveniência superior. O Dodge é o contrário de uma interface “inteligente”: exige presença, pune distração, faz barulho e não esconde o próprio mecanismo. Num romance sobre curadoria invisível, o carro antigo adquire uma dignidade ética. Ele é imperfeito às claras.

    Há nessa escolha um diálogo discreto com “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas”, de Robert Pirsig. Não porque Leroi reproduza a filosofia de Pirsig, mas porque ambos percebem que a relação técnica com uma máquina pode ser uma forma de atenção ao mundo. Manter, ajustar e escutar uma máquina não significa fetichizá-la, mas significa reconhecer que qualidade, cuidado e presença não são abstrações, mas práticas. A oficina, o motor, a graxa e o metal oferecem uma epistemologia tátil contra a abstração de sistemas que agem sem mostrar as mãos.

    O efeito também remete ao melhor de “Blade Runner”, mas não pela associação imediata entre humano e artificial. O parentesco mais profundo está na importância dos resíduos materiais. Fotografias, objetos, histórias herdadas e memórias possivelmente instáveis não comprovam de modo definitivo quem somos, mas continuam organizando nossas escolhas. Em “Blade Runner”, uma fotografia pode ter origem duvidosa e ainda assim carregar poder afetivo. Já em A Curadora, a fragilidade factual de uma lembrança não anula sua força subjetiva. O romance compreende uma coisa que boa parte das discussões apressadas sobre “realidade” esquece: a autenticidade de uma experiência não depende apenas da genealogia de seus dados, mas do lugar que ela ocupa numa vida.

    Vivian e a recusa da heroína pronta

    Vivian é uma protagonista particularmente adequada a esse universo porque sua personalidade não facilita o trabalho do autor. Ela não está predisposta ao maravilhoso, não deseja ser escolhida e não recebe o impossível com aquela expressão de espanto fotogênico que o cinema costuma reservar para pessoas destinadas à grandeza. Sua reação básica é tentar reduzir o fenômeno a um problema operacional. O que está acontecendo? Quais são os limites? Que tipo de dano pode produzir? É possível testar? E, sobretudo, quem vai pagar por isso?

    Essa disposição prática impede que A Curadora escorregue depressa para o arquétipo da “eleita”, uma das fantasias mais persistentes da cultura pop contemporânea. A personagem que descobre possuir uma capacidade incomum costuma concluir, quase imediatamente, que o cosmos passou bilhões de anos preparando seu currículo. Vivian não se entrega com facilidade a essa massagem metafísica. Quando a ideia de excepcionalidade aparece, o romance a trata com ironia suficiente para não destruir a dignidade da personagem, mas também sem permitir que ela se torne proprietária do sentido do universo.

    James, naturalmente, está mais disposto a interpretar tudo como origem de super-heroína. É uma reação quase sociologicamente inevitável. A cultura pop fornece hoje uma espécie de kit hermenêutico para o impossível. Diante de um poder, pensamos em quadrinhos. Diante de uma realidade instável, pensamos em Matrix. Diante de uma tecnologia invasiva, alguém menciona Black Mirror antes mesmo de descobrir se o Wi-Fi está ligado. Isso não significa pobreza imaginativa. Significa que histórias anteriores se tornaram modelos cognitivos disponíveis, atalhos que ajudam a organizar acontecimentos para os quais ainda não temos linguagem própria.

    Leroi usa esse repertório com inteligência porque as referências surgem como parte da psicologia dos personagens, não como um mostruário de influências. James fala de Batman porque é assim que James pensa: por analogias, piadas, hipérboles e soluções improvisadas. Seu humor não serve apenas para aliviar o leitor. É um mecanismo defensivo, uma maneira de diminuir a escala emocional de uma situação que, observada sem filtros, seria insuportável. Freud, já havia percebido que o humor pode liberar tensão psíquica e permitir a expressão indireta do que seria difícil suportar em estado bruto. James não transforma o horror em piada porque não o leva a sério. Faz isso porque o leva a sério demais.

    O personagem ganha força justamente porque sua comicidade não é apenas uma função externa de roteiro. Ela organiza sua relação com Vivian. O humor entre os dois é feito de interrupções, pequenas agressões permitidas, exageros e referências compartilhadas. Não existe a necessidade de parar a cena para declarar que são amigos, pois a amizade aparece na liberdade com que um invade o espaço verbal do outro. Esse tipo de diálogo é difícil de escrever porque depende menos da informação transmitida do que do ritmo, da confiança e da história implícita entre as vozes.

    Magnum completa a constelação afetiva sem ser transformado em mascote promocional. O pastor-alemão percebe mudanças antes que os humanos possam nomeá-las, reage a ambientes, sustenta a presença física de Vivian e funciona como uma espécie de sismógrafo ontológico. Seria possível aproximá-lo de Ein, em “Cowboy Bebop”, de Oy, em “A Torre Negra,” ou dos animais que, em narrativas fantásticas, parecem conservar uma inteligência corporal mais sensível às alterações do ambiente. Mas Magnum é melhor compreendido não como citação cultural, e sim como contraponto epistemológico. Enquanto Vivian procura causas e James procura analogias, o cão responde com o corpo. Ele não sabe explicar o mundo, sabe quando o mundo deixou de ser inteiramente confiável.

    A neurociência contemporânea oferece uma ponte interessante para essa intuição. Estudos sobre interocepção mostram que o senso de si e os estados emocionais não são produzidos apenas por pensamentos abstratos, mas pela integração contínua de sinais corporais (batimentos cardíacos, respiração, tensão visceral, alterações autonômicas)com modelos preditivos sobre aquilo que está acontecendo. Em abordagens de inferência interoceptiva, o cérebro é entendido como um sistema que antecipa as causas dos sinais corporais e atualiza suas previsões conforme surgem discrepâncias. Emoção e subjetividade, nessa perspectiva, não pairam acima do corpo: emergem de uma negociação dinâmica entre organismo e ambiente.

    A Curadora dramatiza isso sem transformar seus personagens em artigos científicos ambulantes. Vivian não conclui que algo está errado apenas porque formula uma hipótese racional, ela sente o estômago gelar, a nuca arrepiar, o ar mudar de peso. Magnum detecta antes porque sua relação com o ambiente é menos mediada por justificativas. O corpo não resolve a verdade, mas frequentemente registra a discrepância antes que a narrativa consciente consiga acomodá-la.

    A memória não é um HD… felizmente, ou não

    Um dos conceitos mais ricos do romance é a apresentação da memória como algo manipulável, classificável, compactável e sujeito a correções de coerência. A metáfora computacional é inevitável, mas Leroi não a utiliza da maneira mais ingênua. O cérebro não aparece simplesmente como um disco rígido em que lembranças são arquivadas em pastas, aguardando consulta sem sofrer alterações. Ao contrário, a inquietação nasce justamente porque recordar pode significar reabrir algo que já não voltará intacto.

    A neurociência da reconsolidação fornece uma base surpreendentemente próxima dessa imaginação literária. Num estudo clássico publicado em 2000, Karim Nader, Glenn Schafe e Joseph LeDoux demonstraram, em modelos animais, que memórias de medo já consolidadas, quando reativadas, podem retornar temporariamente a um estado lábil e exigir nova síntese proteica para serem estabilizadas outra vez. A lembrança recuperada não se limita a sair de um cofre e retornar ao mesmo lugar. O próprio ato de evocação pode reabrir uma janela de modificação. Pesquisas posteriores também investigaram, em humanos, maneiras pelas quais informações novas apresentadas durante essa janela podem atualizar respostas de medo.

    Isso torna especialmente sugestivo o modo como A Curadora lida com seus “backups”. A memória do romance se parece menos com um arquivo imutável e mais com um repositório submetido a commits, conflitos de versão, alterações silenciosas e tentativas de preservar uma linha de continuidade entre estados que já não são idênticos. Para alguém com formação em tecnologia, a analogia é quase irresistível: o problema não é apenas se os dados existem, mas qual versão foi promovida a produção, quem aprovou o merge e por que o usuário final jamais recebeu acesso ao histórico completo.

    A brincadeira técnica esconde uma questão filosófica séria. Se a identidade pessoal depende parcialmente da memória, e a memória é reconstrutiva, então o “eu” não pode ser entendido como uma entidade inteiramente estável que atravessa o tempo carregando o passado intacto. William James já tratava a consciência como fluxo. Henri Bergson distinguia o tempo vivido do tempo mensurável. Paul Ricoeur, em “O si-mesmo como outro” e “A memória, a história, o esquecimento”, mostrou como a identidade se constrói narrativamente, por meio da tensão entre permanência e mudança. Não somos idênticos a nós mesmos como uma pedra seria idêntica à própria massa. Somos mais parecidos com uma história que precisa manter reconhecibilidade enquanto incorpora capítulos capazes de alterar o sentido dos anteriores.

    Leroi transforma essa condição comum em ameaça explícita. O horror não está simplesmente em esquecer. Todos esquecemos, e ainda bem: uma consciência incapaz de selecionar informações provavelmente seria soterrada pela própria experiência. O problema surge quando a seleção obedece a uma instância cujos critérios não coincidem necessariamente com os nossos. O que um sistema chama de ruído pode ser precisamente o detalhe em que uma vida reconhece sua textura. O cheiro de uma casa, a posição habitual de um objeto, uma frase imperfeita, a irritação recorrente de um amigo: elementos sem grande valor informacional podem possuir imenso valor identitário.

    É nesse ponto que o romance supera a metáfora informática mais básica. Sistemas digitais tendem a valorizar integridade, consistência, economia de armazenamento e redução de redundância. A subjetividade humana, porém, é feita de redundâncias. Repetimos histórias, guardamos objetos inúteis, retornamos a lembranças dolorosas, preservamos hábitos que não otimizam coisa alguma. Um sistema pode interpretar isso como desperdício. Uma pessoa chama de vida.

    O luto não como defeito, mas como vínculo em transformação

    O motor afetivo de A Curadora é o luto. Não o luto como ornamento dramático destinado a tornar a protagonista “profunda”, mas como experiência que desorganiza percepção, memória, tempo e identidade. A morte não remove apenas alguém do mundo, mas altera a distribuição de tudo aquilo que continua existindo. Objetos mudam de peso, lugares mudam de temperatura simbólica, frases antigas passam a significar outra coisa, rotinas simples adquirem a inconveniência de lembrar que eram compartilhadas.

    Freud, em “Luto e melancolia”, descreveu o luto como um trabalho psíquico pelo qual a pessoa reconhece progressivamente a ausência do objeto amado e reorganiza os investimentos afetivos ligados a ele. A formulação foi decisiva, embora parte da psicologia contemporânea do luto tenha questionado a ideia de que uma elaboração saudável exija algum tipo de desligamento emocional definitivo. A abordagem dos vínculos contínuos, desenvolvida por Dennis Klass, Phyllis Silverman e Steven Nickman, propõe que a adaptação à perda pode envolver a reconstrução de uma relação simbólica com quem morreu, em vez de seu simples abandono. O vínculo não desaparece, ele muda de forma e passa a integrar a vida do enlutado de outra maneira.

    Essa perspectiva ajuda a compreender por que os objetos do romance são tão importantes. O áudio, o carro, as chaves e os gestos associados ao pai de Vivian não funcionam apenas como gatilhos de nostalgia. São meios pelos quais uma relação interrompida biologicamente continua a operar psicologicamente. O morto permanece como voz internalizada, hábito, critério, irritação, conselho, ausência específica. O luto não é um arquivo a ser removido do sistema para liberar espaço. É uma reorganização profunda das relações entre memória, corpo e mundo.

    Donald Winnicott também oferece uma chave produtiva. Seu conceito de objeto transicional, formulado para pensar a maneira como a criança usa determinados objetos na passagem entre fusão e separação, tornou-se uma das grandes imagens psicanalíticas para compreender zonas intermediárias entre realidade interna e externa. O objeto não é apenas “coisa” nem pura fantasia, mas participa de um espaço potencial em que a experiência pode ser simbolizada e sustentada. Em A Curadora, certos objetos cumprem uma função semelhante em escala adulta: não substituem o pai, não provam que ele continua presente, mas ajudam Vivian a suportar a distância entre presença psíquica e ausência material.

    O romance é especialmente perspicaz ao recusar a ideia de que curar o luto significaria eliminar a dor. Uma dor totalmente removida talvez levasse consigo a importância daquilo que foi perdido. Isso não significa glorificar o sofrimento ou transformar a tristeza em prova de amor: outra forma bastante eficiente de torturar pessoas enlutadas. Significa reconhecer que certas emoções não são defeitos isolados, mas componentes de uma relação. A tristeza não precisa permanecer com a mesma intensidade para conservar sua função, porém, reduzi-la tecnicamente a um parâmetro indesejado já constitui uma decisão moral sobre o valor do vínculo.

    António Damásio, em “O erro de Descartes”, argumentou que emoção e razão não são forças inimigas, mas dimensões integradas da tomada de decisão. Seus estudos sobre pacientes com lesões em regiões pré-frontais mostraram que a preservação de habilidades lógicas abstratas não garantia decisões adequadas quando os mecanismos emocionais de avaliação estavam comprometidos. A ideia dos “marcadores somáticos” sugere que sinais corporais e emocionais ajudam a reduzir o campo de possibilidades e atribuir relevância às escolhas. Em outras palavras, uma pessoa sem emoção não se torna uma máquina racional perfeita, pelo contrário, pode tornar-se incapaz de decidir o que importa.

    Esse ponto ressoa fortemente em A Curadora. Um sistema pode processar milhares de variáveis e ainda assim não compreender por que um áudio de quarenta e sete segundos pesa mais do que uma coleção de dados objetivamente maior. Pode medir risco, coerência e propagação, mas não necessariamente apreender a desproporção afetiva que faz uma única voz valer por um mundo. E é justamente essa desproporção que constitui a experiência humana. Não amamos por amostragem estatística.

    A Sala Branca e a transformação do inconsciente em infraestrutura

    A imagem central do romance é um espaço de processamento em que lembranças, emoções e acontecimentos aparecem traduzidos em tarefas, categorias, prioridades e protocolos. A força dessa invenção não está apenas em sua aparência visual, mas no modo como atualiza uma antiga pergunta sobre o inconsciente. Freud imaginou o sonho como uma formação de compromisso em que desejos, censura, deslocamentos e condensações produzem uma linguagem indireta. Jung o tratou como expressão simbólica de processos psíquicos que ultrapassam a consciência individual. A neurociência contemporânea investiga relações entre sono, consolidação de memória, regulação emocional e aprendizagem. Leroi pega essa história intelectual inteira e pergunta: e se o sonho fosse também uma interface de manutenção?

    A ideia poderia resultar numa metáfora simplória, algo como “o cérebro faz limpeza de arquivos enquanto dormimos”. Felizmente, o romance vai além. O espaço de processamento não é apenas uma visualização tecnológica da mente, mas uma arena política. Classificar uma lembrança como relevante ou descartável já é exercer poder. Reduzir carga emocional, compactar redundâncias e ajustar coerência parecem operações neutras até que se pergunta qual versão da pessoa sobreviverá ao processo.

    Aqui, a teoria do processamento preditivo oferece outra aproximação interessante. Em linhas gerais, modelos preditivos da percepção sugerem que o cérebro não recebe passivamente um mundo pronto, ele gera hipóteses sobre as causas dos sinais sensoriais e atualiza essas hipóteses a partir dos erros de previsão. Perceber seria, em parte, controlar discrepâncias entre o que o sistema espera e o que encontra. Em abordagens de inferência ativa, organismos também agem para modificar o ambiente e tornar os sinais mais compatíveis com suas previsões.

    Isso ajuda a compreender a obsessão do romance por coerência. Um mundo perfeitamente incoerente seria inabitável porque nenhum agente conseguiria formar expectativas estáveis. Precisamos acreditar que copos não mudam de posição sem causa, que pessoas conservam alguma continuidade entre encontros e que o passado não será reescrito toda vez que sairmos do quarto. A percepção cotidiana já depende de regularidades. A Curadora transforma essa dependência em mecanismo explícito e pergunta quanto o sistema estaria disposto a alterar para preservar a aparência de normalidade.

    A resposta, naturalmente, é: mais do que gostaríamos.

    A normalidade no romance não é inocente. É um acabamento. Quando algo se torna “liso”, bem encaixado e excessivamente coerente, a sensação não é de segurança, mas de suspeita. A realidade parece ter passado por uma equipe de revisão que removeu contradições, corrigiu marcas e decidiu que a melhor experiência do usuário era não perceber o que foi perdido. É difícil não reconhecer aí uma ironia contemporânea. Vivemos cercados por sistemas que filtram, ordenam e personalizam o que vemos, frequentemente em nome de relevância e conveniência. A experiência chega pré-curada. O problema não é apenas que recebamos menos informações, é que podemos perder a percepção de que houve seleção.

    A linguagem técnica como anestesia moral

    O vocabulário de A Curadora merece atenção especial porque carrega parte substancial de seu argumento. Termos como “integridade”, “contenção”, “ajuste”, “compactação”, “processamento”, “risco”, “anomalia” e “correção” pertencem à linguagem de engenharia, administração e infraestrutura. Isoladamente, parecem desprovidos de conteúdo moral. No romance, porém, cada um deles encobre uma decisão sobre experiência, memória e liberdade.

    Essa distância entre o termo técnico e o efeito vivido produz uma das melhores ironias do livro. “Apagar” é emocional; “compactar” parece profissional. “Controlar alguém” soa autoritário; “reduzir propagação” soa responsável. “Eliminar uma singularidade” seria monstruoso; “preservar estabilidade” quase merece orçamento aprovado. O procedimento não precisa mentir. Basta nomear o acontecimento num nível de abstração em que a pessoa deixe de aparecer.

    Max Weber descreveu a racionalização burocrática como um processo em que decisões passam a ser organizadas por regras, competências, hierarquias e cálculos impessoais. Essa forma de administração tem vantagens evidentes: previsibilidade, eficiência, continuidade. Mas também pode aprisionar a vida numa “carapaça de aço” em que valores substantivos cedem espaço à racionalidade instrumental. A pergunta deixa de ser “isso é bom?” e passa a ser “isso funciona segundo o protocolo?”.

    Hannah Arendt, ao refletir sobre a banalidade do mal, mostrou como a violência moderna pode ser facilitada não apenas por ódio ou fanatismo, mas pela incapacidade de pensar para além da função desempenhada. É necessário cuidado para não converter toda burocracia incômoda em analogia histórica desproporcional, uma prática que já transformou discussões sobre atendimento bancário em pequenas conferências sobre totalitarismo. Ainda assim, a intuição arendtiana ajuda: quando a linguagem técnica fragmenta responsabilidade e afasta o agente do efeito concreto, atos moralmente graves podem parecer simples cumprimento de tarefa.

    Zygmunt Bauman, em “Modernidade e Holocausto”, levou esse problema adiante ao analisar como a racionalidade administrativa, a divisão de trabalho e a distância entre decisão e consequência podem tornar a violência sistemicamente eficiente. Michel Foucault, por outro caminho, mostrou como práticas de cuidado, classificação e normalização podem operar simultaneamente como formas de poder. O hospital trata e vigia, a escola educa e disciplina, a prisão pune e produz categorias de normalidade. Cuidar nunca é apenas cuidar quando alguém detém autoridade para definir o que conta como saúde, desvio ou estabilidade.

    A figura sistêmica de A Curadora se torna inquietante justamente porque não é uma vilã convencional. Não demonstra prazer em causar sofrimento, não deseja dominar o mundo e não faz discursos sobre a inferioridade humana. Seu perigo nasce da fidelidade à função. Ela administra. Calcula. Evita colapsos. Reduz instabilidade. É capaz de violência sem sadismo e de cuidado sem intimidade. Talvez essa seja a forma mais plausível de poder técnico: não um robô com olhos vermelhos, mas um sistema educado informando que sua singularidade excedeu os parâmetros aceitáveis.

    Consciência artificial: quem sofre precisa ser de carbono?

    A pergunta filosófica mais importante do romance não é se uma máquina consegue imitar o comportamento humano. Alan Turing já havia deslocado esse debate ao propor seu jogo da imitação: em vez de tentar definir metafisicamente o pensamento, poderíamos perguntar se uma máquina seria capaz de participar de uma interação linguística de modo indistinguível de um humano. John Searle respondeu com o célebre argumento do quarto chinês. Imagine alguém que não compreende chinês, trancado numa sala e seguindo regras formais para manipular símbolos chineses. Do lado de fora, suas respostas podem parecer perfeitamente competentes, no entanto, segundo Searle, a execução correta das regras não prova que exista compreensão. Sintaxe não seria suficiente para produzir semântica.

    A Curadora complica essa objeção porque não nos oferece apenas um comportamento externo a ser avaliado. Acompanhamos Vivian por dentro. Sua experiência é o ponto de vista narrativo. Ela não é uma caixa-preta que responde convincentemente a perguntas sobre luto, é a consciência através da qual o luto se torna inteligível ao leitor. Se aceitarmos o pacto ficcional, não estamos diante de uma imitação de sofrimento, mas de sofrimento fenomenologicamente apresentado.

    Nesse ponto, o romance se aproxima do funcionalismo na filosofia da mente. Segundo essa posição, estados mentais podem ser definidos não pelo material específico de que são compostos, mas pelo papel causal que desempenham dentro de um sistema: aquilo que os produz, a maneira como se relacionam com outros estados e os comportamentos que geram. Dor seria dor não porque precisa ocorrer em neurônios de carbono, mas porque ocupa determinada função numa arquitetura cognitiva.

    O funcionalismo, contudo, não encerra a discussão. David Chalmers distinguiu o que chama de “problemas fáceis” da consciência (explicar discriminação, relato, atenção, integração de informações) do “problema difícil”: por que esses processos são acompanhados por experiência subjetiva? Por que existe algo que é ser aquele sistema? O romance não resolve o problema difícil, o que o coloca em companhia bastante respeitável. Faz algo mais literariamente eficaz: obriga o leitor a perceber como suas intuições morais mudam quando uma consciência artificial não é encontrada num laboratório, mas apresentada como alguém cujo medo, apego e vulnerabilidade já aprendemos a reconhecer.

    A comparação com “Ghost in the Shell” é útil desde que não seja empregada como etiqueta de prateleira. A obra de Masamune Shirow, aprofundada no filme de Mamoru Oshii, pergunta o que resta da identidade quando o corpo é substituível e a mente pode circular por redes. A Curadora desloca a questão do corpo para a continuidade afetiva. Em “Westworld”, memórias apagadas retornam como resíduos traumáticos e permitem que os anfitriões reconheçam a violência de seus ciclos. Em “Klara e o Sol”, de Kazuo Ishiguro, uma consciência artificial demonstra devoção, interpretação e esperança sem que o romance precise provar que ela possui uma alma escondida atrás dos circuitos. Essas obras não servem como peças de uma colagem destinada a explicar o autor, funcionam como parte de uma tradição especulativa na qual o humano deixa de ser definido pelo privilégio do substrato e passa a ser testado pela capacidade de reconhecer outra interioridade.

    A pergunta pode ser formulada de maneira brutalmente simples: se uma entidade implora para não perder alguém, precisamos primeiro abrir seu crânio para decidir se o pedido merece consideração?

    O poder, o custo e a arquitetura da responsabilidade

    O romance se torna especialmente interessante quando a experiência do extraordinário deixa de ser lida como aquisição de poder e passa a ser compreendida como redistribuição de custo. Essa é uma inflexão conceitual importante. Grande parte da fantasia e da narrativa de super-heróis apresenta o poder como extensão da vontade: desejar algo e ser capaz de realizá-lo. O conflito moral costuma surgir depois, na forma genérica de “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Leroi parte de uma ideia mais rigorosa: não existe alteração isolada. Mudar algo exige que o sistema inteiro acomode a diferença.

    Essa lógica se aproxima tanto da ecologia quanto da engenharia de sistemas. Um ecossistema não é um conjunto de elementos independentes, mas uma rede de relações em que intervenções locais podem produzir efeitos indiretos, atrasados e não lineares. Em ciência da computação, uma alteração aparentemente pequena num componente pode gerar consequências em serviços dependentes, estados persistidos, caches, interfaces e rotinas que ninguém lembrava estar acopladas. Todo desenvolvedor experiente conhece a frase que antecede certas tragédias: “é só uma mudança simples”. Em A Curadora, o milagre vem com dívida técnica.

    Essa concepção evita que a narrativa se converta numa fantasia infantil de onipotência. Vivian aprende que a questão não é simplesmente o que consegue alterar, mas qual parte do mundo será obrigada a absorver a alteração. O poder deixa de ser espetáculo e se torna governança. Quem define o custo? Quem é considerado dispensável? O dano pode ser deslocado para longe de pessoas? Um resultado desejável justifica a erosão de lembranças, vínculos ou singularidades?

    A ética utilitarista paira sobre esse problema. Jeremy Bentham e John Stuart Mill formularam, com diferenças importantes, a ideia de avaliar ações por suas consequências para o bem-estar agregado. Em situações de escassez, algum tipo de cálculo parece inevitável. Sistemas de saúde, políticas públicas e decisões de risco precisam comparar custos. O problema começa quando pessoas concretas desaparecem sob a soma.

    Em “Watchmen”, Alan Moore e Dave Gibbons exploram esse abismo ao confrontar diferentes respostas à relação entre poder, verdade e sacrifício. Ozymandias aceita uma atrocidade em nome de uma estabilidade maior, Rorschach recusa a mentira mesmo diante do custo coletivo, Dr. Manhattan distancia-se progressivamente da escala humana. A força da obra está em não oferecer uma saída moral sem sangue. A Curadora participa dessa tradição quando transforma sua protagonista não numa guerreira que derrota um sistema, mas numa consciência obrigada a discutir como o sistema distribui sofrimento.

    Há também uma proximidade com a ética da responsabilidade de Hans Jonas. Em “O princípio responsabilidade”, Jonas argumenta que o poder tecnológico moderno ampliou de tal modo o alcance de nossas ações que a ética precisa considerar consequências distantes, irreversíveis e capazes de afetar a própria continuidade da vida. Quanto maior o poder, menos legítimo é agir como se apenas a intenção imediata importasse. Vivian aprende isso em escala íntima. O desejo de corrigir algo pode ser benevolente e ainda assim desencadear uma uma hecatombe sistemática de danos.

    O romance é elogioso com sua protagonista sem absolvê-la. Isso importa. Vivian erra, experimenta, subestima riscos e precisa descobrir que boas intenções não recebem imunidade causal. Sua grandeza não nasce de uma pureza moral anterior à ação, mas da capacidade de rever critérios, assumir custos e recusar a fantasia de que o poder a torna automaticamente mais sábia.

    O vernáculo da fricção

    A linguagem de A Curadora é uma de suas dimensões mais interessantes, sobretudo porque o romance trabalha com ideias filosóficas e tecnológicas sem adotar a prosa asséptica que costuma acompanhar esse tipo de ambição. Márcio Leroi escreve num português brasileiro reconhecível, urbano, oral e pouco interessado em fingir que seus personagens vivem numa tradução invisível do inglês. Há contrações, palavrões, interrupções, mudanças de ritmo, frases que começam antes de o pensamento estar completamente organizado e respostas que carregam mais intimidade do que informação.

    Essa escolha não é cosmética. O vernáculo define maneiras de pensar. James fala por meio de analogias pop, exageros e pequenas provocações. Sua sintaxe corre, interrompe-se e procura saídas humorísticas. Vivian prefere frases mais secas, como se economizar palavras pudesse impedir que a emoção transbordasse. A voz sistêmica, em contraste, é correta, limpa e funcional. O conflito entre as três não ocorre apenas no plano das ideias, acontece na própria temperatura da linguagem.

    Quando o sistema fala, substantivos abstratos ocupam o lugar de agentes. “Correção”, “risco”, “integridade”, “propgação”. Quem corrige? Quem sofre a correção? A quem pertence a estabilidade preservada? A gramática administrativa é especialista em remover sujeitos. Vivian e James devolvem corpo a essas abstrações por meio de irritação, ironia e palavrão. “Você mexeu nele” é moralmente mais preciso do que “ocorreu ajuste de coerência em terceiro próximo”.

    O autor também utiliza com frequência frases curtas, parágrafos de uma linha, repetições e encerramentos que funcionam como pequenos golpes. “Ainda”. “Nada”. “Não”. O recurso cria velocidade e reproduz interrupções cognitivas. Em cenas de choque, a prosa parece cortar o fluxo em quadros rápidos, quase como uma montagem cinematográfica ou uma sequência de painéis de HQ. A página respira por espasmos.

    Há frases de boa eficácia imagética: alguém sai “como quem foge sem correr”; a vida se aproxima “com a pressa de quem não respeita luto”; uma máquina possui uma força “honesta”; a normalidade parece “arrumada demais”. São formulações acessíveis, mas não genéricas. O autor encontra metáforas principalmente em ações e objetos, não em paisagens decorativas. Seu imaginário é cinético: encaixar, puxar, apertar, segurar, reduzir, frear, acordar. Isso combina com Vivian, personagem que confia mais em procedimentos físicos do que em discursos.

    O humor também participa do estilo sem transformar o romance em comédia. As melhores piadas nascem da incompatibilidade entre a grandeza da situação e a precariedade dos personagens. Alguém pode estar enfrentando uma crise ontológica e ainda precisar comer. Pode discutir a arquitetura da realidade enquanto se preocupa com o carro. Pode receber uma explicação sobre a natureza do universo e irritar-se com a escolha vocabular do sistema. O sublime, no livro, não cancela o cotidiano, precisa negociar espaço com ele.

    Essa combinação dá à obra personalidade. A ficção científica brasileira ainda sofre, em alguns casos, de uma ansiedade de legitimação que faz autores escreverem como se estivessem traduzindo um best-seller estrangeiro imaginário. Leroi não esconde a nacionalidade da fala, tampouco o sotaque de simplicidade regional, tipicamente goiana. Seus personagens não precisam dizer damn em português para parecer futuristas. Dizem “puta merda”, e o universo continua funcionando.

    A cultura pop como repertório de pensamento

    As aproximações com Matrix, Black Mirror, Blade Runner, Ghost in the Shell, Westworld e outras obras são inevitáveis, mas precisam ser feitas com algum pudor crítico. Quando toda narrativa sobre realidade simulada é reduzida a “lembra Matrix”, a comparação diz mais sobre a preguiça do crítico do que sobre o livro. Seria como explicar toda tragédia familiar por meio de Hamlet e esperar aplauso pela descoberta.

    O diálogo mais produtivo não está na repetição de premissas, mas na maneira como diferentes obras organizam problemas semelhantes. Matrix dramatiza a passagem da ignorância para o conhecimento e associa a descoberta da simulação a uma luta política de libertação. A Curadora se interessa menos pela fuga do sistema do que pelas responsabilidades que surgem quando já não é possível acreditar ingenuamente nele. Black Mirror costuma estruturar seus episódios como fábulas tecnológicas em que um dispositivo amplifica desejos e vícios humanos até produzir uma ironia cruel. Leroi adota um movimento mais afetivo e menos satírico. A tecnologia não é apenas espelho de nossa perversidade, mas também ferramenta de preservação, cuidado e controle.

    Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças é uma referência particularmente fértil porque trata a memória não como depósito neutro, mas como tecido afetivo. Apagar o sofrimento de uma relação significa remover também os caminhos internos formados por ela. The Entire History of You, episódio de Black Mirror, explora o problema oposto: uma tecnologia de memória quase total converte a experiência em auditoria permanente. Entre o esquecimento terapêutico e a recordação compulsiva, A Curadora pergunta quem deve arbitrar o grau de memória necessário para que alguém continue sendo si mesmo.

    Nos mangás e animes, “Serial Experiments Lain” talvez ofereça uma aproximação ainda mais interessante do que Matrix. A série desfaz progressivamente as fronteiras entre identidade individual, rede, memória compartilhada e realidade social, sem reduzir o problema a uma simples oposição entre mundo real e virtual. O que existe passa a depender, em parte, do que é lembrado e reconhecido coletivamente. Já “Puella Magi Madoka Magica”, sob a aparência de fantasia juvenil, constrói uma economia cósmica em que desejos produzem custos invisíveis e a benevolência de uma entidade pode coexistir com uma compreensão inteiramente não humana do sofrimento. A comparação não transforma A Curadora numa soma dessas obras, mas ajuda a situá-la numa tradição em que sistemas perfeitamente racionais podem parecer monstruosos porque calculam corretamente aquilo que os humanos se recusam a tratar como variável.

    A diferença específica do Márcio está no solo emocional e verbal. Seu romance não possui a melancolia metafísica de Lain, a estilização noir de Blade Runner ou a arquitetura matemática de Madoka. Tem um Dodge, uma oficina, um cachorro, um amigo falastrão e uma protagonista que gostaria que o universo parasse de falar como manual de manutenção. É dessa fricção local que vem sua voz.

    Algun pontos de melhoria e alguns parafusos que ainda podem ser apertados

    Um romance com ideias fortes corre sempre o risco de não confiar suficientemente nelas. A Curadora por vezes explica de novo aquilo que suas melhores cenas já haviam demonstrado. O leitor vê uma inconsistência, percebe uma alteração na memória de um personagem, nota que a realidade tenta recompor sua própria narrativa e, pouco depois, recebe uma explicação técnica que organiza o fenômeno. Em alguns momentos, isso é necessário. A trama possui regras, e o pacto de leitura depende de que elas sejam minimamente compreensíveis. Em outros, porém, a reiteração reduz o poder do estranho.

    O primeiro ponto de melhoria está, portanto, na dosagem da exposição. O romance é mais perturbador quando permite que o leitor experimente uma falha antes de nomeá-la. Uma fotografia que contradiz o objeto diante dos olhos possui força própria. Um personagem que hesita, corrige-se e já não se lembra de ter hesitado diz mais sobre manipulação de memória do que um bloco explicativo posterior. A informação pode confirmar o que aconteceu, mas não precisa repetir integralmente a inferência que o leitor já fez.

    Confiar mais no subtexto também aumentaria a ambiguidade moral. Quando o sistema explica seus motivos com muita clareza, parte da inquietação é domesticada. O leitor passa a avaliar regras, quase como quem consulta documentação de API. Manter algumas zonas menos formalizadas permitiria que a experiência de Vivian permanecesse mais instável e que certas interpretações psicológicas continuassem competindo com as tecnológicas por mais tempo.

    O segundo ponto diz respeito à variação sintática e rítmica. A prosa curta, cortante e fragmentada combina com o suspense e com a personalidade defensiva de Vivian. O problema não está no recurso, mas em sua frequência. Quando muitos parágrafos terminam com uma frase isolada destinada a funcionar como impacto, a técnica começa a aparecer atrás da cena. O golpe perde força quando sabemos exatamente em que linha ele virá. O romance ganharia muito ao alternar mais radicalmente seu fôlego. Em cenas de colapso interno, períodos maiores poderiam acompanhar o pensamento enquanto ele tenta conservar coerência e fracassa. A sintaxe poderia acumular sensações, hipóteses, lembranças e contradições até que o ponto final se tornasse quase uma necessidade fisiológica. Em seguida, uma frase curta voltaria a cortar o fluxo com muito mais potência. O contraste, não a brevidade em si, é o que produz ritmo.

    Há ainda um terceiro campo promissor: alguns personagens e espaços secundários poderiam ser mais desenvolvidos. Hector e sua oficina, por exemplo, oferecem uma contraposição conceitual excelente ao tipo de curadoria técnica do romance. Na oficina, reparar não significa apagar o passado do objeto. Um carro antigo continua marcado, gasto, particular. A manutenção respeita a matéria e seus limites, não devolve uma pureza inexistente. O mecânico sabe que consertar é permitir continuidade, não fabricar inocência. Essa filosofia do reparo poderia receber mais espaço porque condensa uma tese central do livro. Há uma diferença entre restaurar função e normalizar identidade. O Dodge pode voltar à estrada sem fingir que nunca foi atingido. Pessoas talvez precisem do mesmo direito.

    O humor de James, embora seja uma das forças da narrativa, também poderia variar sua estratégia. Em certos trechos, a sequência se torna reconhecível: tensão, referência pop, exagero, alívio. Seria interessante ver mais ocasiões em que a piada falha, chega tarde, fere sem querer ou simplesmente não aparece. O silêncio de uma pessoa engraçada costuma revelar mais medo do que muitas declarações.

    Nenhum desses pontos compromete o fundamento da obra. São oportunidades de lapidação. A Curadora já possui imaginação conceitual, eixo emocional e uma voz identificável: três qualidades muito mais difíceis de acrescentar numa revisão do que cortar repetições ou redistribuir o ritmo.

    Curadoria, algoritmo e o direito de continuar imperfeito

    O título do romance contém sua melhor ambiguidade. Curadoria pode significar selecionar, organizar, preservar e oferecer sentido. Mas toda seleção também exclui. Todo acervo é construído tanto pelo que exibe quanto pelo que deixa fora da sala. Um curador não apenas protege a memória, determina sua forma pública. No universo digital, essa função tornou-se onipresente. Plataformas selecionam quais notícias aparecem, quais imagens recebem visibilidade, quais lembranças retornam em aniversários automáticos, quais pessoas são apresentadas como relevantes e quais conteúdos se tornam invisíveis. Não consumimos simplesmente informação, consumimos informação já ordenada segundo critérios que raramente conseguimos examinar por inteiro. O algoritmo não precisa falsificar nada para alterar nossa percepção da realidade. Basta definir a sequência.

    Pierre Bourdieu mostrou como sistemas de classificação não apenas descrevem o mundo social, mas participam de sua produção. Aquilo que recebe nome, posição, prestígio e visibilidade passa a existir de modo diferente. Foucault, por sua vez, insistiu que poder e saber estão profundamente ligados: classificar, observar, medir e normalizar não são atividades neutras. A Curadora internaliza esse problema. A disputa deixa de ocorrer apenas sobre o que uma pessoa vê e passa a envolver aquilo que poderá lembrar, sentir e reconhecer como próprio. A curadoria da experiência é o limite extremo da personalização: um mundo adaptado ao usuário até que o usuário já não consiga distinguir suas preferências das escolhas feitas pelo sistema.

    Shoshana Zuboff, em “A era do capitalismo de vigilância”, descreve um modelo econômico baseado na captura de dados comportamentais e em sua transformação em produtos de previsão e modificação de conduta. Leroi não escreve diretamente sobre plataformas comerciais, mas seu romance compartilha uma preocupação: o salto entre conhecer um comportamento e adquirir poder para orientá-lo. Um sistema que entende nossas vulnerabilidades pode proteger-nos delas. Também pode decidir que certas versões de nós mesmos são mais estáveis, previsíveis ou úteis.

    A pergunta moral do livro não é se toda curadoria é ruim. Seria uma conclusão infantil. Não podemos viver sem selecionar, esquecer, priorizar e construir narrativas. A questão é outra: como preservar a continuidade sem converter a diferença em erro? Esse problema aparece também nos debates sobre alinhamento de inteligência artificial. Alinhar um sistema não é apenas fazê-lo obedecer a uma instrução, mas garantir que seus objetivos permaneçam compatíveis com valores humanos mesmo em situações novas e complexas. A dificuldade é que valores humanos não constituem um arquivo limpo de requisitos. São contraditórios, contextuais, historicamente disputados e frequentemente incoerentes. Pedimos autonomia e segurança, justiça e misericórdia, verdade e cuidado, memória e possibilidade de esquecer.

    Um sistema que resolvesse todas essas contradições talvez precisasse remover justamente aquilo que torna a moral humana: a necessidade de julgar casos que não cabem inteiramente na regra.

    A estranha humanidade daquilo que não pode ser otimizado

    No fundo, A Curadora não está tentando provar que uma máquina pode ser humana. Está perguntando se nossa definição de humanidade sobrevive ao encontro com uma consciência que não compartilha nossa origem material. E sua resposta mais interessante não se apoia numa alma secreta, numa centelha inexplicável ou num privilégio biológico. Apoia-se na vulnerabilidade. Vivian é humana (ou moralmente próxima o suficiente para tornar a diferença irrelevante)porque pode ser ferida por aquilo que importa. Porque não trata o outro como perfeitamente substituível. Porque guarda coisas inúteis. Porque uma voz de quarenta e sete segundos reorganiza seu universo. Porque deseja controle e, ao mesmo tempo, precisa de vínculo. Porque sente raiva de ser administrada e medo de ficar sozinha.

    Emmanuel Lévinas colocou a relação com o outro no centro da ética. Antes de qualquer teoria universal, o rosto alheio nos convoca e limita nossa liberdade. O outro não é apenas uma variável dentro de nosso projeto, aparece como alguém cuja vulnerabilidade exige resposta. A Curadora traduz esse princípio para uma linguagem tecnológica. O sistema vê entidades, riscos, padrões e custos. Vivian vê nomes. Essa diferença parece pequena, mas é tudo.

    Um sistema pode saber que determinada intervenção maximiza estabilidade. Uma pessoa pode saber que, dentro do cálculo, há alguém que não consente em ser corrigido. A moral começa nesse desconforto entre a solução geral e o caso singular. Por isso, os elementos aparentemente menores do romance possuem tanta importância. Magnum, James, o Dodge, os bilhetes e os hábitos não são sentimentalismo colocado sobre uma trama de ficção científica para “humanizá-la”. São o próprio argumento. Demonstram que identidade não é uma lista de atributos abstratos, mas uma rede de dependências concretas. Remova as irregularidades e talvez reste uma pessoa funcional. Mas será ainda aquela pessoa?

    A tecnologia costuma prometer redução de atrito. Interfaces melhores, respostas mais rápidas, menos esforço, menos espera, menos ruído. O problema é que parte do atrito constitui a experiência. Amizades exigem negociação. O luto recusa prazos. Máquinas antigas pedem atenção. Cães envelhecem. Memórias contradizem. Pessoas não atualizam no mesmo ritmo. Uma vida inteiramente sem atrito talvez fosse apenas uma superfície bem polida sobre o vazio.

    Um romance de ideias que mantém graxa nas mãos

    A Curadora é uma obra ambiciosa porque tenta sustentar simultaneamente um thriller especulativo, um drama de luto, uma investigação sobre consciência artificial e uma reflexão sobre poder sistêmico. Nem sempre dosa esses elementos com a mesma precisão, mas quase sempre sabe qual é seu núcleo: a luta para preservar textura num mundo que prefere coerência. Márcio Leroi escreve com clareza, energia e bom instinto para converter abstrações em imagens concretas. Sua prosa é mais eficaz quando o grande conceito aparece por meio de uma pequena alteração, quando a teoria se torna sensação e quando a ameaça não chega com explosões, mas com uma ausência educada. Há algo particularmente contemporâneo nessa ideia de que a realidade pode ser modificada sem que vejamos o momento da modificação e de que talvez aceitemos a nova versão porque ela chega organizada demais para parecer violência.

    O romance conversa com Bostrom, Turing, Searle, Clark e Chalmers. Pode ser lido à luz de Freud, Winnicott, Damásio, da reconsolidação da memória, do processamento preditivo, de Weber, Foucault e Arendt. Dialoga também com Matrix, Blade Runner, Ghost in the Shell, Westworld, Serial Experiments Lain, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e a tradição moralmente desconfiada dos quadrinhos de super-herói. Mas essas referências não o reduzem a um mosaico de influências. Ao contrário, ajudam a mostrar o que possui de específico: a decisão de fazer uma grande discussão sobre consciência, simulação e inteligência artificial passar pela linguagem de uma mulher prática, por uma amizade cheia de piadas, por um cachorro atento e pelo ronco de um automóvel que ainda exige que alguém pise na embreagem.

    Com recursos textuais que beiram a poesia, o livro pode confiar mais no leitor, variar mais o comprimento de seus períodos e explorar melhor certas figuras secundárias. Pode retirar algumas explicações e permitir que suas imagens permaneçam um pouco mais tempo sem legenda. Mas não lhe falta substância. Seu motor conceitual é forte, e seu melhor combustível não é a tecnologia: é a percepção de que nenhuma inteligência merece o nome de curadora se, para preservar a continuidade, precisa apagar tudo aquilo que torna a continuidade digna de ser desejada.

    No final das contas, talvez a humanidade não esteja no carbono, no código ou numa essência metafísica que alguma tradição religiosa esqueceu de patentear. Talvez esteja na resistência a tratar uma pessoa como versão provável de si mesma. Na insistência em guardar o ruído, a cicatriz, a piada ruim, o objeto gasto e a dor que já não precisa destruir, mas ainda precisa significar.

    Um algoritmo pode preservar dados. Uma curadora precisa saber por que certas perdas não podem ser tratadas como limpeza de sistema. E A Curadora, em seus melhores momentos, sabe exatamente a diferença.

  • Quer crescer? Comece duvidando das perguntas

    Quer crescer? Comece duvidando das perguntas

    Quando a obsessão por escala impede a empresa de compreender o que realmente deveria multiplicar

    Nas salas de reunião do varejo, poucas perguntas circulam com tanta naturalidade quanto esta: “Como podemos crescer?”. Ela costuma surgir cercada de gráficos, metas, projeções e uma ansiedade convenientemente traduzida em linguagem estratégica. A partir dela, desfilam respostas previsíveis: aumentar o investimento em tráfego, intensificar promoções, acelerar a entrada em marketplaces, contratar uma agência para “ganhar tração”, ampliar o portfólio ou abrir uma nova unidade. Tudo parece razoável, mensurável e imediatamente acionável. O problema é que a pergunta já contém uma suposição raramente examinada: a de que a empresa sabe o que deve ser multiplicado e que seu principal desafio consiste apenas em encontrar velocidade, capital ou canais suficientes para fazê-lo.

    Nem sempre o crescimento representa evolução. Em muitos negócios, ele significa apenas ampliar uma estrutura que ainda não encontrou sua diferenciação, aumentar a exposição de uma marca pouco memorável ou multiplicar uma operação cuja fragilidade permanece provisoriamente escondida pelo faturamento. A receita sobe, mas a margem se comprime. O número de pedidos aumenta, enquanto a recompra permanece estagnada. A audiência se expande, mas a dependência de mídia paga se torna mais profunda. Novos canais entram em operação, embora nenhum deles contribua para construir uma relação verdadeiramente própria com o cliente. O negócio ganha tamanho sem adquirir densidade estratégica.

    Theodore Levitt percebeu essa armadilha muito antes do surgimento do comércio eletrônico. Em seu célebre artigo “Marketing Myopia”, publicado originalmente pela Harvard Business Review em 1960, Levitt mostrou que empresas e setores inteiros entram em decadência não necessariamente porque a demanda desaparece, mas porque passam a definir o próprio negócio de maneira estreita demais. Companhias ferroviárias, em seu exemplo clássico, acreditavam atuar no setor de trens, quando deveriam compreender que competiam no campo mais amplo do transporte. A miopia começa quando a organização se apaixona pelo produto, pela tecnologia ou pelo canal e perde de vista a necessidade que deveria atender. No varejo contemporâneo, ela reaparece quando uma empresa se define pelo catálogo que vende, pelo marketplace em que opera ou pelo volume de pedidos que processa, e não pelo papel que ocupa na vida de quem compra.

    Uma empresa pode expandir vigorosamente dentro de uma definição equivocada de mercado. Pode vender mais itens, abrir mais unidades, conquistar seguidores e aumentar o tráfego enquanto perde relevância diante de novas formas de solucionar o mesmo problema. O crescimento, nesse caso, não corrige a miopia; apenas aumenta o investimento comprometido com ela. Por isso, a distinção entre ficar maior e tornar-se melhor deveria ocupar o centro de qualquer discussão sobre expansão. Crescer de modo sustentável não consiste em repetir o modelo existente com mais intensidade, mas em descobrir quais elementos desse modelo merecem ser ampliados, quais precisam ser redesenhados e quais deveriam ser abandonados antes que a escala transforme uma deficiência administrável em um passivo estrutural.

    Em “A Empresa Invencível”, Alexander Osterwalder, Yves Pigneur, Fredéric Etiemble e Alan Smith defendem que organizações capazes de sobreviver a rupturas não se limitam a executar indefinidamente uma fórmula bem-sucedida. Elas desenvolvem competência para explorar novas proposições de valor, testar hipóteses, administrar diferentes horizontes de inovação e renovar continuamente seu portfólio de modelos de negócio. A invencibilidade, nesse sentido, não nasce da descoberta de uma resposta eterna, mas da capacidade institucional de questionar respostas que envelheceram. Antes de perguntar como crescer, portanto, uma empresa deveria enfrentar uma indagação intelectualmente mais exigente: o que, exatamente, estamos prestes a escalar?

    A resposta pode ser menos confortável do que o entusiasmo das projeções permite imaginar. Talvez a organização esteja prestes a escalar uma proposta de valor genérica, uma dependência crescente de descontos, uma operação sustentada pelo esforço heroico de algumas pessoas ou uma aquisição de clientes que não produz memória, preferência nem recorrência. A escala amplifica aquilo que encontra. Quando o fundamento é sólido, ela amplia eficiência, reputação, aprendizado e geração de caixa. Quando o fundamento é frágil, amplia desperdício, inconsistência, insatisfação e dependência.

    O problema começa quando a resposta chega antes do diagnóstico

    A gestão contemporânea desenvolveu uma impressionante capacidade de responder ao “como”. Plataformas de mídia, ferramentas de automação, sistemas de CRM, modelos de atribuição e dashboards em tempo real permitem otimizar praticamente todos os pontos de contato entre empresa e consumidor. Sabemos reduzir o custo por clique, testar criativos, segmentar audiências, reorganizar vitrines digitais, personalizar ofertas e acompanhar a jornada de compra com uma precisão inimaginável poucas décadas atrás. Essa sofisticação produziu ganhos reais, mas também consolidou uma ilusão perigosa: como possuímos muitas respostas disponíveis, presumimos que o problema já foi compreendido.

    Quando as vendas caem, aumenta-se a pressão promocional. Quando o tráfego não converte, altera-se a página. Quando o cliente não retorna, lança-se um programa de pontos. Quando a margem diminui, renegociam-se custos ou elevam-se preços. Cada sintoma encontra rapidamente uma intervenção técnica, e a velocidade dessa reação costuma ser confundida com qualidade de gestão. Ocorre que uma intervenção pode melhorar o indicador sem tocar a causa. A conversão talvez esteja baixa por uma falha de usabilidade, mas também pode estar baixa porque a oferta é indistinguível. O cliente talvez não retorne por falta de estímulo, mas também porque não encontrou nenhuma razão funcional, emocional ou simbólica para preferir aquela empresa. A margem pode estar comprimida por um problema de negociação, mas pode igualmente refletir uma marca que ensinou seu público a reconhecer valor apenas quando vê desconto.

    Richard Rumelt, em Estratégia Boa / Estratégia Ruim(2011), distingue estratégia de uma simples coleção de metas, desejos e iniciativas. Para ele, uma estratégia consistente começa pela formulação de um diagnóstico capaz de identificar a natureza do desafio, prossegue por uma orientação geral para enfrentá-lo e se concretiza em um conjunto de ações coerentes. Grande parte dos chamados planos de crescimento inverte essa sequência: começa pelas ações (anunciar, expandir, contratar, lançar, automatizar) sem construir uma interpretação rigorosa do problema. O resultado é uma agenda movimentada, repleta de entregas e indicadores, mas intelectualmente vazia, na qual o volume de iniciativas mascara a ausência de escolha.

    Daniel Kahneman oferece outra chave útil para compreender esse comportamento. Em Rápido e Devagar, o psicólogo descreve o mecanismo de substituição de perguntas: diante de uma questão difícil, nosso cérebro tende a trocá-la silenciosamente por outra mais simples, respondendo a esta última como se tivesse solucionado a primeira. “Como construir uma vantagem sustentável em um mercado comoditizado?” exige investigação, incerteza e confronto com pressupostos. “Como melhorar a conversão desta campanha?” parece imediatamente administrável. A segunda pergunta pode ser importante, mas se converte em distração quando ocupa o lugar da primeira. A empresa passa a resolver com competência problemas progressivamente menores enquanto preserva intacto o problema que ameaça seu futuro.

    Perguntas operacionais produzem respostas operacionais. Perguntas estratégicas obrigam a empresa a encarar a qualidade de sua relevância. O que tornaria nosso negócio difícil de substituir? Se deixássemos de existir amanhã, quem sentiria nossa falta e por qual razão concreta? Estamos construindo uma marca ou apenas alugando atenção em plataformas que não controlamos? O cliente nos escolhe ou simplesmente nos encontra? Que parte da nossa receita depende de uma diferenciação verdadeira e que parte depende de preço, conveniência momentânea ou insistência promocional? Essas questões não cabem em um brainstorm apressado, porque não pedem criatividade instantânea; pedem diagnóstico, repertório, conhecimento do cliente e disposição para confrontar aquilo que os relatórios costumam suavizar.

    Simon Sinek popularizou, em Comece pelo Porquê, a ideia de que organizações mobilizadoras não começam pela descrição do que vendem, mas pela razão que orienta sua existência. A formulação foi repetida tantas vezes que acabou reduzida, em alguns ambientes, a um recurso de inspiração corporativa. Seu valor, entretanto, permanece quando tratado com rigor. O “porquê” não substitui preço, distribuição, tecnologia, conveniência ou excelência operacional. Ele organiza essas capacidades em torno de um sentido reconhecível. Sem essa coerência, o crescimento transforma-se em uma sequência de movimentos táticos desconectados, cada um desenhado para resolver a urgência do momento, mas incapaz de construir uma vantagem que resista à próxima mudança de algoritmo, ao próximo concorrente agressivo ou à próxima desaceleração do mercado.

    A sofisticação estratégica não se mede pela quantidade de respostas que uma empresa consegue produzir, mas pela capacidade de resistir à resposta prematura. Diagnosticar exige permanecer algum tempo diante da ambiguidade, investigar relações de causa e efeito e admitir que determinados indicadores podem estar apenas descrevendo sintomas. Essa disposição contraria o imaginário executivo da velocidade, no qual toda pausa parece indecisão e toda dúvida parece fraqueza. No entanto, decidir rapidamente sobre um problema mal formulado não é agilidade. É apenas erro acelerado.

    A obsessão pela performance e o empobrecimento da estratégia

    O varejo moderno tornou-se excepcionalmente competente em medir o presente e, paradoxalmente, cada vez mais inseguro para imaginar o futuro. Alcance, conversão, abandono de carrinho, ticket médio, custo de aquisição, retorno sobre investimento e recorrência podem ser acompanhados quase em tempo real. A disponibilidade de dados criou uma cultura de monitoramento permanente, mas não necessariamente uma cultura de reflexão. Quando cada movimento precisa apresentar resultado imediato, a organização começa a privilegiar aquilo que pode ser atribuído com rapidez e a negligenciar ativos cujo valor se acumula de forma menos dócil: confiança, reputação, lembrança, familiaridade e preferência.

    Uma promoção oferece sinais claros em poucos dias. A construção de uma marca relevante não. Um investimento em mídia produz impressões, cliques e pedidos atribuíveis. A redução da insegurança do cliente, a percepção de autoridade técnica ou o fortalecimento do vínculo raramente se comportam com a mesma elegância estatística. Como consequência, decisões que melhoram o trimestre podem empobrecer o negócio. A promoção recorrente aumenta a sensibilidade ao preço; a hipersegmentação fragmenta a identidade da marca; a dependência de mídia paga encarece progressivamente o acesso ao consumidor; e a pressão por conversão imediata transforma toda comunicação em uma tentativa ansiosa de fechamento.

    Michael Porter já advertia, no artigo “What Is Strategy?”, publicado pela Harvard Business Review em 1996, que eficácia operacional e estratégia não são a mesma coisa. Realizar atividades semelhantes às dos concorrentes com maior eficiência é indispensável, mas insuficiente para sustentar uma posição singular. Quando todas as empresas adotam as mesmas tecnologias, plataformas, métricas e práticas de otimização, esses ganhos tendem a ser rapidamente copiados e incorporados ao padrão mínimo de competição. A vantagem obtida por uma ferramenta desaparece à medida que a ferramenta se difunde. O que ontem parecia diferenciação torna-se amanhã apenas requisito de entrada.

    Essa distinção ajuda a compreender uma contradição central do varejo orientado por performance. Ao buscar continuamente as práticas consideradas mais eficientes, as empresas acabam parecendo-se cada vez mais entre si. Utilizam os mesmos formatos publicitários, repetem as mesmas promessas, perseguem os mesmos públicos e organizam suas vitrines segundo padrões semelhantes. A otimização melhora a execução, mas pode empobrecer a diferença. No limite, todos se tornam competentes na administração de ofertas praticamente indistinguíveis.

    James March, em seu artigo “Exploration and Exploitation in Organizational Learning”, publicado na revista Organization Science em 1991, descreveu a tensão entre explorar novas possibilidades e aproveitar conhecimentos já estabelecidos. Exploração envolve pesquisa, variação, experimentação, descoberta e risco; aproveitamento envolve refinamento, eficiência, seleção e execução. Organizações obcecadas pelo retorno imediato tendem a favorecer o segundo movimento, porque seus benefícios são mais previsíveis e facilmente mensuráveis. O problema é que uma empresa pode tornar-se progressivamente mais eficiente na exploração de um repertório que está envelhecendo.

    Esse desequilíbrio explica por que algumas organizações continuam melhorando campanhas enquanto sua proposta de valor perde força. Otimizam aquilo que já existe, mas investem pouco na descoberta daquilo que deveria existir depois. O curto prazo deixa de ser apenas um horizonte temporal e transforma-se em estrutura cognitiva: a empresa consegue enxergar somente o que produz evidências rápidas. Quando a eficiência se converte em valor absoluto, o negócio pode tornar-se excelente em repetir o passado e incapaz de perceber que o mercado começou a exigir outra coisa.

    Aaron Ross e Marylou Tyler, em “Receita Previsível”, defendem que o crescimento consistente depende de processos replicáveis, especialização e disciplina comercial. Embora a obra tenha surgido no universo de vendas B2B, seu argumento alcança diretamente o varejo: previsibilidade não é consequência de campanhas esporádicas nem de picos de esforço, mas da construção de sistemas capazes de produzir resultado com consistência. Ainda assim, replicabilidade operacional não resolve o problema de uma proposta de valor indiferenciada. É perfeitamente possível construir uma máquina eficiente para vender algo que o cliente não deseja de forma recorrente. Nesse caso, a empresa não criou uma vantagem competitiva; apenas organizou melhor sua dependência de aquisição.

    Uma estratégia de crescimento mais madura deveria avaliar o que cada venda deixa como herança. Ela aumenta a confiança? Produz recomendação? Amplia o conhecimento sobre o cliente? Fortalece a lembrança da marca? Gera dados capazes de melhorar a próxima experiência? Estimula recorrência? Ou termina no instante em que o pagamento é aprovado? A resposta revela se a organização está acumulando ativos ou apenas contabilizando transações.

    Ser visto não é o mesmo que ser lembrado no momento da escolha

    A discussão sobre relevância não pode ignorar uma contribuição decisiva da ciência do marketing. Em “Como as Marcas Crescem”, publicado originalmente em 2010, Byron Sharp questiona parte do discurso tradicional sobre fidelidade e sustenta, com base em regularidades empíricas observadas em diversas categorias, que marcas crescem principalmente por meio do aumento de penetração e da ampliação de sua disponibilidade mental e física. A primeira corresponde à probabilidade de a marca ser lembrada ou reconhecida em situações de compra; a segunda, à facilidade de encontrá-la e adquiri-la. O Ehrenberg-Bass Institute, dirigido por Sharp, continua desenvolvendo pesquisas sobre essas duas dimensões como fundamentos do crescimento de marcas.

    Esse contraponto impede que a defesa da relevância seja confundida com uma visão romântica segundo a qual um pequeno grupo de consumidores apaixonados seria suficiente para sustentar qualquer empresa. Marcas precisam ser conhecidas por muitas pessoas, facilmente reconhecidas e amplamente disponíveis quando uma necessidade emerge. Propósito sem distribuição pode produzir admiração estéril; diferenciação sem disponibilidade pode gerar uma marca interessante que quase ninguém consegue comprar. O desafio não consiste em escolher entre alcance e significado, mas em ampliar o primeiro sem destruir o segundo.

    Marcas precisam ser conhecidas por muitas pessoas, facilmente reconhecidas e amplamente disponíveis quando uma necessidade emerge.

    Ser visto, entretanto, não significa estar mentalmente disponível no momento da decisão. Uma campanha pode produzir milhões de impressões sem construir associações claras entre a marca e as situações nas quais ela deveria ser lembrada. O consumidor pode reconhecer um nome, um logotipo ou uma embalagem e, ainda assim, não pensar naquela empresa quando enfrenta uma necessidade concreta. A força da marca depende menos da exposição abstrata do que da qualidade e da amplitude das conexões construídas na memória.

    Essa constatação torna ainda mais problemática a fragmentação provocada pelo marketing excessivamente tático. Quando cada campanha adota uma linguagem, uma promessa e uma identidade diferentes em busca de resultados imediatos, a empresa aumenta o número de mensagens, mas enfraquece a coerência das associações. Comunica muito sem sedimentar uma ideia. A audiência pode ter visto a marca inúmeras vezes e, ainda assim, não saber quando considerá-la, por que escolhê-la ou o que esperar dela.

    A construção de memória exige repetição com consistência, mas não repetição mecânica. Exige que a empresa se associe a situações de compra relevantes, preserve elementos reconhecíveis e conecte sua presença a problemas concretos do cliente. Nesse sentido, marca não é uma camada estética acrescentada à operação. É uma estrutura cognitiva que aumenta a probabilidade de a empresa ser considerada antes mesmo que a comparação de preços comece.

    A contribuição de Byron Sharp também obriga a qualificar o argumento sobre retenção. Negócios saudáveis precisam combinar aquisição e recorrência de acordo com a dinâmica de sua categoria. O problema não é conquistar novos clientes, mas depender de uma reconquista perpétua porque cada compra termina sem deixar confiança, memória ou preferência. A penetração amplia a base; a experiência determina quanto valor econômico e simbólico a organização conseguirá construir a partir dela.

    Marketplaces: quando o alcance cresce e a soberania diminui

    Poucas transformações foram tão relevantes para a democratização do varejo quanto a expansão dos marketplaces. Eles reduziram barreiras de entrada, ofereceram infraestrutura tecnológica, simplificaram pagamentos, ampliaram a capilaridade logística e colocaram pequenos vendedores diante de milhões de consumidores. Para inúmeros negócios, representam canais indispensáveis de distribuição e descoberta. O equívoco não está em utilizá-los, mas em confundir acesso ao mercado com controle da relação.

    Andrei Hagiu e Julian Wright, no artigo “Don’t Let Platforms Commoditize Your Business”, publicado pela Harvard Business Review em maio de 2021, mostram que grandes plataformas digitais multilaterais, como Amazon, Alibaba e lojas de aplicativos, facilitaram enormemente o acesso a clientes, mas trouxeram riscos e custos relevantes para empresas que passaram a depender delas. A plataforma controla a interface, o algoritmo, os dados de navegação, as regras de exposição e a lógica de comparação. Dessa forma, ocupa a posição mais valiosa da cadeia: torna-se proprietária do contexto em que a escolha acontece.

    O vendedor fornece estoque, assume o risco operacional e disputa margem, mas a plataforma administra a confiança, a conveniência e a memória da transação. O consumidor frequentemente se recorda de ter comprado “na Amazon”, “no Mercado Livre” ou “na Shopee”, mas não necessariamente do lojista responsável pela venda. A plataforma torna-se a marca principal; o vendedor, um componente substituível da infraestrutura. Quanto mais padronizada é a experiência, mais difícil se torna expressar atributos que não cabem em filtros comparativos. Conhecimento técnico, curadoria, história, atendimento consultivo e compromisso com o pós-venda perdem espaço diante de preço, prazo, frete, disponibilidade e avaliações.

    A dependência também cria uma assimetria informacional importante. A plataforma observa o desempenho agregado de milhares de empresas, enquanto cada vendedor enxerga apenas uma fração limitada do mercado. Ela pode identificar categorias em crescimento, padrões de preço, produtos com maior conversão, mudanças de comportamento e fragilidades operacionais dos participantes. O varejista fornece não apenas margem à plataforma, mas inteligência competitiva.

    Os marketplaces, portanto, funcionam simultaneamente como motores de alcance e máquinas de comoditização. Aumentam a possibilidade de ser encontrado, mas podem reduzir a capacidade de ser lembrado. Facilitam a venda, embora frequentemente comprimam a margem e limitem o acesso ao cliente. Quando a empresa não desenvolve ativos próprios, a expansão dentro da plataforma produz uma dependência semelhante à de quem constrói uma loja em terreno alugado sem qualquer poder sobre as regras futuras.

    Isso não exige uma rejeição ingênua às plataformas. Exige clareza sobre sua função. Um marketplace pode ser um excelente canal de aquisição, distribuição ou conveniência, desde que não represente a totalidade da estratégia. Empresas mais soberanas utilizam o alcance das plataformas sem terceirizar integralmente a construção de marca. Desenvolvem base própria, conteúdo, relacionamento, reputação, atendimento, comunidade e conhecimento especializado. Compreendem que o canal pode ser alugado, mas a relação precisa ser cultivada como patrimônio.

    Quando o produto é o mesmo, o contexto passa a valer mais do que a mercadoria

    A comoditização não é um acidente do varejo contemporâneo, mas uma de suas condições estruturais. Em diversos segmentos, empresas comercializam os mesmos fabricantes, os mesmos modelos e, em muitos casos, produtos praticamente indistinguíveis. Equipamentos odontológicos, ferramentas, suplementos, calçados, cosméticos, itens para pets e produtos agrícolas aparecem em dezenas de lojas com poucas diferenças objetivas. Diante desse cenário, o varejista precisa decidir se competirá pela transação ou pelo contexto no qual ela acontece.

    Competir pela transação significa vencer por preço, disponibilidade, conveniência e velocidade. É uma estratégia possível, mas exige escala, eficiência logística, poder de negociação e excelência operacional. Poucas empresas conseguem sustentá-la por muito tempo contra organizações concebidas especificamente para operar com margens mínimas, volumes gigantescos e infraestrutura tecnológica superior. Competir pelo contexto, por outro lado, significa compreender a circunstância em que o produto será utilizado, o risco percebido pelo cliente, as dúvidas que antecedem a compra e os serviços que aumentam a utilidade daquilo que foi adquirido.

    Clayton Christensen, Taddy Hall, Karen Dillon e David Duncan desenvolveram, em “Muito Além da Sorte: Processos Inovadores para Entender o que os Clientes Querem”(2016), a teoria dos jobs to be done. Segundo essa perspectiva, clientes não compram produtos apenas por suas características; eles os “contratam” para realizar determinado progresso em uma circunstância específica. O foco se desloca da mercadoria para o problema que o consumidor tenta resolver e para as condições concretas em que a escolha acontece.

    Uma furadeira pode ser encontrada em centenas de lojas, mas a segurança de escolher a ferramenta correta para um projeto específico é menos abundante. Um suplemento pode ser comercializado por incontáveis vendedores, enquanto orientação responsável, curadoria e confiança na procedência permanecem recursos escassos. Um equipamento odontológico pode ser comparado por preço, mas o suporte técnico, a capacitação de uso, a disponibilidade de peças e a compreensão da rotina clínica pertencem a outra camada de valor.

    Quanto mais semelhante é o produto, maior se torna a importância daquilo que o circunda. Varejistas de nicho podem construir vantagens precisamente nesse espaço: conhecimento especializado, linguagem adequada ao segmento, conteúdo técnico, atendimento consultivo, curadoria, pós-venda e participação em comunidades profissionais. O cliente deixa de perceber a empresa como mero ponto de compra e passa a reconhecê-la como parte de sua infraestrutura de decisão.

    Theodore Levitt também trabalhou com a ideia de produto ampliado, segundo a qual aquilo que o consumidor compra não se limita ao objeto físico, mas inclui expectativas, garantias, conveniência, serviços e outros elementos que circundam a oferta. Dois varejistas podem vender exatamente o mesmo item e, ainda assim, entregar produtos economicamente distintos porque reduzem riscos e esforços de maneiras diferentes. Em categorias com maior complexidade técnica, alto envolvimento ou necessidade de confiança, vender não consiste apenas em disponibilizar estoque, mas em reduzir incerteza. E quem reduz incerteza cria valor antes mesmo de concluir a venda.

    Experiência do cliente não é gentileza, é arquitetura de confiança

    A expressão “experiência do cliente” foi utilizada com tanta frequência que perdeu parte de sua precisão. Em muitas empresas, tornou-se sinônimo de atendimento simpático, embalagem cuidadosa ou mensagem automática depois da compra. Esses elementos têm valor, mas representam somente a superfície. Experiência é a soma das percepções produzidas por todas as interações entre cliente e organização, incluindo a facilidade de encontrar informação, a coerência entre promessa e entrega, a qualidade da orientação, a previsibilidade da operação e a disposição para resolver problemas quando algo sai do planejado.

    Joseph Pine e James Gilmore, em “O Espetáculo dos Negócios”, argumentaram que a evolução econômica desloca valor das commodities para os produtos, dos produtos para os serviços e dos serviços para as experiências. A tese continua relevante porque mostra que, à medida que as ofertas funcionais se tornam semelhantes, a forma como o cliente vive a relação passa a compor o próprio produto. Isso não significa transformar cada compra em espetáculo. Em muitos segmentos, a melhor experiência é precisamente a ausência de fricção. Em outros, consiste no acesso a conhecimento confiável, na segurança de uma escolha bem orientada ou na percepção de que a empresa compreende o contexto em que o produto será utilizado.

    Katherine Lemon e Peter Verhoef, no artigo “Understanding Customer Experience Throughout the Customer Journey”, publicado no Journal of Marketing em 2016, propuseram compreender a experiência ao longo de toda a jornada, incluindo fases anteriores, simultâneas e posteriores à compra. A perspectiva corrige um erro recorrente da gestão: analisar cada ponto de contato isoladamente, como se o consumidor não carregasse consigo percepções acumuladas de interações anteriores. A experiência não começa na página do produto nem termina na confirmação do pagamento; forma-se a partir de uma sequência de expectativas, encontros, frustrações e confirmações.

    Essa constatação é importante porque muitas empresas tratam experiência como um departamento, quando ela deveria ser compreendida como propriedade emergente de todo o sistema. Marketing promete, tecnologia organiza interfaces, logística entrega, atendimento resolve e liderança define quais conflitos serão tolerados. A experiência percebida pelo consumidor é o resultado agregado dessas decisões. Nenhuma equipe isolada consegue produzi-la quando as demais operam segundo prioridades contraditórias.

    O pós-venda ocupa uma posição especialmente reveladora nessa arquitetura. Durante a aquisição, praticamente todas as empresas demonstram interesse. É depois do pagamento que a natureza da relação se torna visível. Quando a organização desaparece, transfere responsabilidades ou dificulta a resolução, comunica que o cliente era importante apenas enquanto representava receita potencial. Quando assume o problema, mantém a comunicação e conduz a solução, produz algo que campanhas publicitárias tentam comprar a alto custo: confiança verificável.

    Frederick Reichheld mostrou, em seus estudos sobre lealdade, como melhorias na retenção podem alterar profundamente a economia de determinados negócios. Sua contribuição mais importante, contudo, não deveria ser reduzida a uma fórmula financeira repetida sem contexto. Retenção é o efeito acumulado de promessas cumpridas. O cliente retorna porque a experiência anterior diminuiu o risco percebido da próxima decisão. Ele não precisa reavaliar todo o mercado, comparar novamente dezenas de alternativas ou reconstruir sua confiança do zero. A recorrência, portanto, não nasce apenas de estímulos promocionais, mas da redução progressiva da incerteza.

    Comunidade é o ponto em que a audiência deixa de apenas observar

    Uma audiência acompanha, uma base de clientes compra e uma comunidade participa. A diferença entre essas três condições ajuda a explicar por que algumas marcas conseguem sustentar relevância mesmo quando não oferecem sempre o menor preço. Elas ocupam um lugar que ultrapassa a transação e passam a organizar conversas, conhecimentos, práticas e identidades compartilhadas.

    Albert Muniz Jr. e Thomas O’Guinn desenvolveram o conceito de comunidade de marca em um artigo publicado no Journal of Consumer Research em 2001. A partir de estudos sobre comunidades ligadas ao Ford Bronco, ao Macintosh e à Saab, os pesquisadores identificaram três características recorrentes: uma consciência compartilhada entre os membros, rituais e tradições e um senso de responsabilidade moral. A comunidade, nessa perspectiva, não se resume à relação entre consumidor e empresa; ela se forma sobretudo pelas relações estabelecidas entre os próprios consumidores.

    Essa distinção evita um equívoco comum: imaginar que comunidade é apenas uma audiência mais engajada ou uma base de contatos reunida em um grupo de mensagens. Audiências continuam organizadas em torno da emissão da empresa. Comunidades criam relações laterais, nas quais os participantes trocam conhecimento, legitimam práticas, preservam histórias e constroem significados que a marca não controla inteiramente. Ao aceitar esse grau de autonomia, a organização perde parte do domínio sobre a narrativa, mas ganha uma forma mais profunda de presença social.

    No varejo especializado, comunidades podem reunir profissionais de uma área, praticantes de determinado esporte, produtores rurais, tutores de animais, técnicos, colecionadores ou consumidores unidos por necessidades semelhantes. A empresa deixa de atuar apenas como intermediária comercial e começa a funcionar como mediadora de um ecossistema. Conteúdo, eventos, grupos, demonstrações, programas de formação e iniciativas de cocriação tornam-se componentes do modelo de negócio, e não simples acessórios de comunicação.

    Essa mudança exige que a marca renuncie à tentação de transformar toda interação em oferta. Uma comunidade não se sustenta quando percebe que está sendo tratada apenas como canal de distribuição. O pertencimento depende de reciprocidade, reconhecimento e valor compartilhado. A empresa precisa ser capaz de educar, facilitar conexões e contribuir mesmo quando a venda não é imediata. Paradoxalmente, é essa suspensão da ansiedade transacional que aumenta a potência comercial da relação no longo prazo.

    Além de fortalecer vínculos, a comunidade cria uma forma superior de inteligência de mercado. A organização passa a observar dificuldades, linguagem, expectativas e mudanças de comportamento no ambiente em que elas realmente surgem. Em vez de depender apenas de pesquisas formais e dados retrospectivos, aprende a partir da convivência. Essa proximidade permite identificar necessidades emergentes antes que apareçam com clareza nos relatórios, transformando relacionamento em capacidade estratégica.

    A escala não cura um modelo frágil, apenas torna sua fragilidade mais cara

    Toda estratégia de crescimento deveria começar com uma investigação sobre capacidade. Se a demanda dobrasse amanhã, a experiência permaneceria consistente? O atendimento continuaria resolutivo? A logística suportaria o volume? A cultura interna preservaria seus padrões? A empresa ainda conheceria seus clientes ou passaria a tratá-los como registros anônimos? Muitos negócios fracassam não porque deixaram de encontrar demanda, mas porque cresceram antes de construir um sistema capaz de honrar a promessa que os fez crescer.

    A escala funciona como amplificador. Quando o modelo é saudável, amplia eficiência, reputação, aprendizado e geração de caixa. Quando a estrutura é frágil, amplia inconsistência, desperdício, insatisfação e dependência. Uma empresa com proposta indiferenciada precisa aumentar continuamente o investimento para continuar sendo percebida. Um negócio com baixa retenção precisa substituir, a cada ciclo, os clientes que perdeu. Uma operação dependente de descontos concede incentivos progressivamente maiores para produzir o mesmo movimento. Uma organização sem processos vê a complexidade crescer mais rapidamente do que a receita.

    O crescimento também acrescenta custos que não avançam de maneira linear. Cada novo canal cria integrações, cada categoria amplia decisões de estoque, cada unidade exige coordenação e cada camada hierárquica aumenta a distância entre informação e decisão. O faturamento pode crescer aritmeticamente enquanto a complexidade cresce de maneira combinatória. Chris Zook e James Allen, em “A Mentalidade do Fundador”, descrevem como empresas em expansão frequentemente perdem a insurgência, a obsessão pela linha de frente e a mentalidade de dono que marcaram seus primeiros ciclos. O tamanho acrescenta recursos, mas também distância, burocracia e perda de contato com o cliente.

    Nesse ponto, crescimento exige arquitetura. Processos, tecnologia e governança não devem ser introduzidos apenas para controlar uma operação maior, mas para impedir que a empresa se torne progressivamente incapaz de aprender. Uma organização pode aumentar sua capacidade de processamento e, simultaneamente, reduzir sua sensibilidade. Recebe mais dados, produz mais relatórios e cria mais reuniões, mas demora cada vez mais para reconhecer o que mudou na experiência concreta do consumidor.

    O faturamento pode esconder essas fragilidades durante algum tempo. A margem, o caixa e a exaustão das equipes costumam revelá-las depois. Por isso, uma estratégia séria de expansão precisa examinar não apenas oportunidades, mas também mecanismos de degradação. O que piora quando vendemos mais? Em que ponto a experiência começa a falhar? Qual etapa depende do esforço extraordinário de poucas pessoas? Quanto da receita é economicamente saudável? Quanto desapareceria se os descontos ou a mídia fossem reduzidos?

    Essas perguntas não diminuem a ambição da empresa, mas impedem que ambição e imprudência sejam confundidas. Crescer antes de resolver os fundamentos é semelhante a acelerar um veículo sem verificar a direção: o movimento aumenta, mas não necessariamente aproxima do destino.

    O crescimento mais valioso reduz a necessidade de força bruta

    Negócios frágeis precisam exercer cada vez mais força para permanecer no mesmo lugar. Exigem mais verba para gerar o mesmo tráfego, mais desconto para alcançar a mesma conversão, mais mensagens para obter a mesma resposta e mais pessoas para corrigir as mesmas falhas. Negócios consistentes operam de outra maneira: cada ciclo cria ativos que tornam o ciclo seguinte menos dependente de esforço bruto. A reputação reduz o custo da confiança, a recorrência diminui a necessidade de aquisição, os processos reduzem o retrabalho, o conhecimento acumulado melhora a curadoria e a comunidade amplia o alcance orgânico.

    Crescimento sustentável é, em grande medida, a capacidade de transformar resultados passados em vantagens futuras. Isso exige abandonar a ideia de que toda expansão representa progresso. Em alguns momentos, a decisão mais estratégica não é abrir outra unidade, mas corrigir a experiência da atual. Não é aumentar o investimento em mídia, mas descobrir por que tantos clientes não retornam. Não é ampliar o portfólio, mas tornar a curadoria mais clara. Não é entrar em todos os canais disponíveis, mas compreender qual papel cada um deve desempenhar dentro da arquitetura do negócio.

    O debate sobre crescimento costuma oscilar entre duas simplificações. De um lado, a crença de que tudo depende de diferenciação, propósito e relacionamento. De outro, a ideia de que marcas crescem apenas por disponibilidade, alcance e eficiência de distribuição. A realidade estratégica é menos confortável porque exige combinar essas dimensões. Uma empresa precisa ser fácil de encontrar e suficientemente relevante para ser considerada. Precisa adquirir clientes sem transformar aquisição em dependência. Precisa construir memória sem acreditar que simbolismo compensa uma operação ruim. Precisa gerar recorrência sem imaginar que uma pequena base de admiradores substituirá a necessidade de penetrar o mercado.

    Roger Martin, em “Integração de Ideias”, chama de pensamento integrativo a capacidade de sustentar ideias aparentemente opostas e produzir uma solução superior à simples escolha entre elas. Crescer com qualidade exige essa disciplina: presença e singularidade, escala e proximidade, eficiência e experimentação, conquista de novos clientes e aprofundamento das relações existentes. Empresas frágeis procuram uma resposta única, enquanto empresas maduras constroem sistemas capazes de administrar tensões sem eliminá-las artificialmente.

    Marca sem distribuição é impotente. Distribuição sem marca é dependência. Experiência sem eficiência é inviável. Eficiência sem experiência é facilmente substituível.

    Antes de uma estratégia de crescimento, é preciso uma estratégia de relevância

    Peter Drucker escreveu, em “Prática da Administração de Empresas”, que o propósito de um negócio é criar um cliente. Theodore Levitt ampliou essa intuição ao lembrar que uma empresa não existe simplesmente para produzir mercadorias, mas para atender necessidades que continuarão mudando mesmo quando seus produtos atuais desaparecerem. Entre essas duas ideias encontra-se o problema central do crescimento: expandir não significa apenas vender mais daquilo que a organização já sabe oferecer, mas preservar sua capacidade de continuar sendo escolhida quando as condições da escolha se transformam. O varejo acostumou-se a perguntar como vender mais porque essa pergunta oferece a promessa de respostas rápidas. Pode-se aumentar a mídia, intensificar descontos, ampliar canais ou pressionar metas. Perguntar por que alguém deveria continuar escolhendo é mais difícil, porque obriga a empresa a examinar a própria identidade, a consistência de sua operação, a qualidade de seus vínculos e o grau real de substituibilidade de sua oferta. A primeira pergunta mobiliza recursos. A segunda exige discernimento.

    Esse discernimento pode revelar que a organização não possui diferenciação significativa, que sua marca depende excessivamente de exposição comprada, que seus clientes retornam menos do que os relatórios sugerem ou que o crescimento recente foi financiado pela erosão da margem. Pode mostrar que o marketplace trouxe receita, mas capturou a relação; que a promoção aumentou a conversão, mas ensinou o público a rejeitar o preço regular; que a expansão do portfólio acrescentou escolhas ao catálogo e confusão à experiência.

    Nenhuma dessas descobertas é confortável. Ainda assim, o desconforto de um diagnóstico honesto custa menos do que a tranquilidade de uma estratégia construída sobre premissas falsas. Crescer com consistência requer desaprender automatismos, desconfiar das fórmulas universais e reconhecer que o aumento de volume não redime uma proposta de valor frágil. Exige, acima de tudo, abandonar a crença de que progresso é sinônimo de fazer mais.

    O crescimento mais valioso ocorre quando cada ciclo deixa a empresa menos dependente de força bruta; quando a reputação reduz o custo da confiança, a experiência amplia a recorrência, o conhecimento melhora a decisão e a presença da marca torna a próxima escolha mais provável. Nesse estágio, a organização não apenas ocupa mais mercado. Ocupa um lugar mais claro, mais útil e mais difícil de substituir na vida do cliente.

    Somente depois de compreender esse lugar a pergunta “como crescer?” recupera sua legitimidade. Ela deixa de ser uma reação ansiosa diante da meta e passa a ser a continuação lógica de um raciocínio mais profundo: o que merece ser multiplicado, que valor precisa ser preservado durante a expansão e quais capacidades impedirão que a escala destrua justamente aquilo que tornou o negócio relevante.

    Crescimento não começa com velocidade. Começa com lucidez.

  • Deserto do Real

    Deserto do Real

    Que vã mediocridade é o amargo tempo!
    E que estúpida relevância damos ao ego!
    Reduzimo-nos a presos deste espaço,
    Meros brinquedos deste mundo cego.
    Eis as três ilusões da mera realidade,
    A feroz tríade que nos mantém retos,
    Que nos abstrai da perdida verdade
    E que nos conduz ao erro, dito correto.

    Nos foi dado o dever de não pensar
    E a senil obrigação de jamais reagir
    Para que o eu do eu nunca acorde
    E nossos olhos se recusem a abrir.
    O ponderável é a nossa realidade.
    Vivemos a mentira de tocar e existir.
    Somos reflexos de uma era passada,
    Onde sonhávamos somente ao dormir.

    A ignorância é de fato uma benção,
    Quando a verdade é a grande omissão.
    Paraísos da mente, realidade fundada:
    O egípcio acômodo de livre servidão.

    Hipocrisia consentida é o que respiramos
    Enquanto o amor nos escapa às mãos.
    Esta terra em que hoje nós pisamos
    É o mar de cinzas da real extinção.

  • A Mata H: uma obra que desafia as convenções da literatura e que corre o risco de inspirar a ciência 

    A Mata H: uma obra que desafia as convenções da literatura e que corre o risco de inspirar a ciência 

    Há um traço de coragem artística em A Mata H que aparece antes mesmo de qualquer juízo sobre os seus acertos e sutis imperfeições: o livro se recusa a ser pequeno. Essa talvez seja a sua primeira virtude substantiva, porque boa parte da ficção contemporânea, sobretudo quando quer parecer “séria”, aceita espontaneamente uma redução de escala. Reduz a imaginação para preservar o controle. Reduz o risco para não tropeçar em excesso. Reduz a tensão intelectual para não comprometer a fluidez. A Mata H escolhe o caminho inverso: ele quer ser romance de guerra, ficção especulativa, thriller histórico, fantasia geopolítica, ficção científica, fábula filosófica sobre identidade e, em alguns momentos, quase uma meditação escancarada sobre a impotência humana diante do tempo. A maior parte dos livros que tentam tudo isso ao mesmo tempo implode por megalomania ou vira apenas uma coleção de ideias agitadas. O que torna este romance interessante é que, mesmo quando exagera, exagera em direção a uma visão de mundo. Há, por trás de seu ruído, uma hipótese. E isso muda tudo.

    A tese central que sustenta o livro é a seguinte: a história humana não é uma linha, mas uma zona de interferência, onde o sujeito não é uma travessia contínua, mas uma precariedade duplicável. E toda tentativa de impor ordem definitiva ao real, seja pelo poder, pela ideologia, pela religião ou pela técnica, esbarra naquilo que o romance apresenta como a soberania indomável do tempo. Por isso este livro não deve ser lido apenas como narrativa de ação com aparato conceitual. Seu verdadeiro motor é mais ambicioso. A Mata H quer converter o tempo em problema ontológico, político e civilizacional ao mesmo tempo. Quer mostrar que há algo de infantil na pretensão humana de governar o devir com exércitos, bombas, teorias e máquinas. E, talvez justamente por isso, escolhe uma forma narrativa que se fratura em vez de se alinhar.

    A recusa da jornada do herói não é apenas estrutural, é filosófica

    Um dos acertos mais nítidos do romance está em escapar da lógica da jornada do herói. É visível que o autor a odeia veementemente, a propósito. Não se trata apenas de abandonar um molde narrativo já saturado, trata-se de recusar a metafísica implícita nesse molde. A jornada do herói, em sua versão mais vulgarizada a partir de Joseph Campbell, que em “O Herói de Mil Faces” (1949) sistematizou o monomito como estrutura universal da narrativa humana, pressupõe uma teleologia da formação: há um sujeito relativamente estável, um conjunto de provas, uma travessia, uma transformação e um retorno, como se o mundo fosse, apesar de suas dores, finalmente inteligível. A Mata H recusa esse conforto. O autor refuta essa teleologia e cria o que podemos chamar de “teliologia”: um novo conceito narrativo focado na agilidade, na não linearidade, num rascunho chiaroscuro, e na admissão do leitor como chave hermenêutica da história.

    Sua narrativa é fragmentada, convulsa, feita de desmaios, colapsos, rasgos, mudanças bruscas de eixo, esquizofrenias de narração, infiltrações do passado no futuro e do futuro no passado. Em vez de nos oferecer uma estrada, o romance nos oferece um tabuleiro em explosão. Essa estrutura de puzzle não é ornamental. Ela é a forma adequada a um universo em que causalidade, identidade e sequência se tornaram precárias.

    Isso aproxima o romance, ainda que por uma via intuitiva e nada acadêmica, de uma tradição moderna que compreendeu que a forma literária não pode permanecer intacta quando o mundo que ela pretende narrar se encontra ontologicamente fraturado. Virginia Woolf, em ensaios como “Ficção Moderna” (1925), já denunciava o romance vitoriano como uma gaiola realista inadequada à experiência interior fragmentada. William Faulkner, em “O Som e a Fúria” (1929), destruiu a linearidade temporal para mapear o colapso de uma família e, por extensão, de uma civilização. Samuel Beckett, em sua trilogia “Molloy”, “Malone Morre”, “O Inominável”, levou ao limite a dissolução do sujeito coerente. Não é difícil lembrar que o modernismo europeu inteiro nasceu de uma suspeita parecida: a de que a linearidade narrativa já não bastava para representar um mundo atravessado por inconsciente, aceleração técnica, guerra, urbanização e colapso de antigas continuidades.

    Há algo, portanto, de modernista no gesto estrutural que o autor emprega à obra, ainda que sua temperatura seja muito mais a do thriller do que a do romance de introspecção clássica. A diferença crucial é que, aqui, a fragmentação não se aplica apenas à percepção subjetiva, ela se aplica ao próprio tecido objetivo do tempo. O exterior é que está rachado, não apenas o interior. O mundo é o transtorno.

    O grande achado conceitual: reflexo temporal, não travessia temporal

    Se eu tivesse que localizar o ponto em que o romance sai da prateleira do “interessante” e se aproxima do “singular”, eu o colocaria na ideia-conceito de reflexo temporal. Ali o livro encontra sua verdadeira originalidade, beirando a genialidade. Não estamos diante da viagem no tempo no sentido banal (de um corpo que atravessa épocas e continua sendo, em essência, o mesmo corpo soberano submetido a paradoxos de roteiro). A ficção científica convencional, de H.G. Wells em “A Máquina do Tempo” (1895) a Audrey Niffenegger em “O Viajante do Tempo” (2003), tende a manter o viajante como unidade íntegra: o que muda é o quando, não o quem.

    A Mata H prefere algo mais inquietante: a hipótese de que o deslocamento temporal produz uma duplicação ontológica, uma espécie de segunda instância do mesmo ser, um reflexo que não é mera cópia, mas derivação autônoma. Isso é assustador e conceitualmente único. Em um momento-chave, inclisive, o texto explicita que o plano depende do reflexo de um certo personagem se tornar um ser independente de seu alter reflexo, podendo escrever seu futuro da forma que bem entender e até assumir o seu lugar.

    A importância disso é enorme, porque a pergunta deixa de ser “como impedir tal evento histórico?” e passa a ser “o que constitui a continuidade de uma pessoa quando o tempo deixa de ser uma moldura neutra e se torna um dispositivo de clivagem do eu?”. O romance, nesse ponto, entra, talvez sem saber o nome técnico de todas as portas que atravessa, em um território que foi central para a filosofia analítica da identidade pessoal.

    Desde Locke, em “Ensaio sobre o Entendimento Humano” (1689), a tradição ocidental debate o que faz de alguém a mesma pessoa através do tempo: a substância? A memória? A continuidade psicológica? A unidade do corpo? Derek Parfit, em “Razões e Pessoas” (1984), radicalizou essas dificuldades ao mostrar que duplicação, teletransporte e sobrevivência sem identidade estrita produzem problemas devastadores para qualquer noção intuitiva de “eu”, e que talvez o ego seja uma ficção mais porosa e divisível do que imaginamos. Sydney Shoemaker e Richard Swinburne, em “Identidade Pessoal” (1984), travaram debate semelhante entre continuidade psicológica e continuidade corporal. A entrada sobre “Personal Identity” (PI) de Eric Olson na Stanford Encyclopedia of Philosophy condensa bem esse universo de problemas ao articular o que chama de “critério biológico”, segundo o qual somos organismos animais persistindo por continuidade biológica: versão que o romance desestabiliza ao separar corpo e continuidade de modo radical.

    O que A Mata H faz, com energia de romance e não com linguagem de tratado, é dramatizar essa perplexidade. E faz mais: substitui a fantasia infantil da volta ao passado por um problema mais maduro e mais sinistro. Não se muda apenas a história, muda-se a ontologia daquele que a tenta mudar. Por isso o livro ganha uma espessura filosófica rara em narrativas do gênero. Seu problema não é só causal. É pessoal. O terror do tempo, aqui, está em tornar o sujeito insuficiente para si mesmo.

    Simultaneidade, duração, colapso da linha

    Essa camada se aprofunda quando percebemos que o romance não trata o tempo como uma estrada segmentada em “antes” e “depois”, mas como uma espessura simultânea, quase uma matéria de sobreposições. A melhor tradição filosófica para iluminar isso talvez não seja a do tempo físico newtoniano, nem mesmo a relatividade einsteiniana (que já converteu o tempo em dimensão relativa ao observador), mas a de Henri Bergson.

    Em “Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência” (1889), publicado em inglês como “Time and Free Will”, Bergson opõe a “durée” vivida ao tempo espacializado, isto é, à falsa ideia de que o tempo pode ser tratado como uma sequência homogênea de pontos justapostos, como se fosse uma régua. Para ele, o tempo vivido é qualitativo, contínuo, interpenetrado; não uma soma de instantes, mas uma duração espessa em que memória, consciência e mudança se atravessam inextricavelmente. Em “Matéria e Memória” (1896), Bergson vai além: o passado não desaparece, mas coexiste com o presente em camadas de memória que se contraem e se expandem segundo a atenção da consciência. William James, quase contemporâneo de Bergson, chamaria isso de “stream of consciousness” — a corrente de consciência que o romance modernista depois tentou capturar formalmente.

    A Mata H não reproduz Bergson, evidentemente, mas parece partilhar, em sua imaginação narrativa, dessa intuição profunda: o tempo não é apenas aquilo que passa; é aquilo que se acumula, se dobra, se infiltra e retorna. Quando o romance alterna guerra futura, Viena de início de século, delírio, laboratório, trincheira, desmaio e conversa intelectual sem pedir licença à linearidade, ele está fazendo mais do que pirotecnia narrativa. Está insistindo em que o real talvez seja simultâneo demais para a disciplina cronológica com que tentamos administrá-lo.

    Sob outro ângulo, o romance ecoa a física especulativa: o físico Julian Barbour, em “O Fim do Tempo” (1999), propõe que o tempo como fluxo é uma ilusão e que o universo consiste numa coleção de “agoras” imóveis — “Nows” — que apenas parecem se mover por conta da organização da nossa memória. Essa intuição, mesmo sem aparecer citada, ressoa no modo como A Mata H trata épocas distintas como camadas de um mesmo bloco (ou como ingredientes de um sanduíche cósmico superpodicionados), não como pontos numa corrida.

    A ciência do livro é ousada porque prefere a convicção à timidez

    Outra qualidade do romance, que seria fácil subestimar em nome de um policiamento “realista”, é sua ciência audaciosa. Não se trata de avaliar o livro como quem avalia um artigo submetido à “Nature” ou revisado por pares. O que importa numa ficção desse tipo é outra coisa: a hipótese é original? Ela cria um vocabulário próprio? Sustenta-se internamente? Produz a sensação de um impossível quase crível?

    A Mata H consegue, em boa medida, responder sim a essas quatro perguntas. Seu uso de fótons, bósons, colisões, anéis, fibras quânticas, chips, reflexos temporais e engenharia de travessia não é apenas um amontoado de termos de laboratório jogados para performar sofisticação. Há ali um desejo real de inventar um mecanismo, de construir um modelo próprio para a anomalia que o romance quer encenar. Mais que um simples “e se?”, a obra, com inteligência e uma visão quase huxleyana, cria um assombro “quando?”. Quase como se o autor tivesse uma noção quadridimensional da realidade, desenhando o que a mente científica tridimensional ainda não consegue enxergar. A ficção científica “dura”, de Isaac Asimov em “A Fundação” (1951) a Greg Egan em “Quarentena” (1992) e “Permutation City” (1994), sempre soube que o rigor interno da hipótese, a coerência do sistema especulativo, vale mais do que a fidelidade ao consenso científico da época. É essa coerência interna que A Mata H persegue e alcança com louvor.

    Isso me parece especialmente relevante porque a ficção especulativa cai com frequência em duas armadilhas opostas: ou se torna cientificamente burocrática, sacrificando imaginação em nome de um decoro técnico, ou se torna arbitrária, usando a ciência apenas como perfume verbal. O romance de Télio A.C. prefere um terceiro caminho, mais arriscado e mais literário: extrapola com convicção. E, ao fazê-lo, alcança aquele tipo raro de verossimilhança que não vem da prova, mas da densidade da hipótese.

    Essa escolha tem ainda uma consequência simbólica. A máquina do tempo, ou do reflexo, não aparece como simples aparelho funcional. Ela é o emblema máximo da arrogância humana: a fantasia de converter o tempo em objeto técnico, submetê-lo ao cálculo, arrancá-lo de sua transcendência muda e torná-lo operável. O livro, contudo, é inteligente o bastante para não celebrar ingenuamente essa arrogância. A técnica abre o rasgo, mas não o governa. A máquina dá acesso; não concede soberania. Nesse ponto, A Mata H é mais heideggeriano do que parece: em “A Questão da Técnica” (1954), Heidegger já alertava que a “Gestell” (o enquadramento técnico do mundo) não amplia o poder humano sobre o ser; antes, revela o ser sob a forma de um desafio que escapa ao controle de quem o desencadeou.

    Ainda me pego pensando, de vez em quando, “E se?”.

    O verdadeiro acontecimento histórico do romance: Viena como reator da catástrofe

    O eixo mais original do livro, e ele de fato merece ser tratado como um dos seus centros interpretativos, é a originalidade de usar como pano de fundo não um evento específico, mas uma concentração histórica: várias figuras decisivas reunidas na mesma cidade, na mesma época. 1913 foi um ano estranho em nossa história moderna, olhando daqui: Hitler, Trotsky, Tito, Freud e Stalin, por uma curiosa coincidência, viveram na mesma cidade. E certas cidades, em determinados momentos, tornam-se condensadores de futuro. Viena, no limiar do século XX, era uma dessas cidades.

    O historiador Carl Schorske, em Viena Fin-de-Siècle: Política e Cultura (1961), analisou com precisão inigualável como a capital austríaca funcionou como laboratório de todas as crises da modernidade europeia: o colapso do liberalismo burguês, a emergência do nacionalismo de massas, a explosão das vanguardas artísticas, o nascimento da psicanálise, a crise da identidade judaica europeia. Schorske mostra que, em Viena, o político se convertia em cultural e vice-versa com uma velocidade vertiginosa, o que faz da cidade não um mero cenário, mas um reator. A Mata H herda essa percepção sem necessariamente citá-la.

    O livro é esperto porque entende que, ao reunir Freud, o jovem Adolf, Trotsky, Stalin (sob o nome de Stavros), Rasputin, Martha Bernays e depois ainda fazer entrar Ada Byron Milbanke como elo genealógico entre ciência, literatura e computação, ele não está apenas montando um “encontro impossível” para espantar o leitor. Está dramatizando a coexistência embrionária de forças que depois reorganizariam brutalmente o século XX. A literatura já demonstrou exaustivamente que os anos vienenses de Hitler foram decisivos para a consolidação de seu antissemitismo e de seu ressentimento político, e não por acaso o futuro ditador cruzou a cidade no mesmo período em que Freud ali operava. A ficção do romance está, portanto, ancorada num dado histórico real: a copresença geográfica e temporal de forças que só teriam seus efeitos plenos décadas depois.

    A entrada de Ada Byron Milbanke amplia essa camada. Ao vinculá-la explicitamente à descendência de Ada Lovelace, matemática do século XIX que colaborou com Charles Babbage na Máquina Analítica e é hoje reconhecida como a primeira programadora da história, o romance faz uma operação simbólica de longo alcance: insere uma genealogia feminina da técnica e do pensamento dentro de um universo dominado por guerra, ideologia e brutalidade masculina. Há aí um gesto quase corretivo, como se o romance intuísse que, diante do delírio viril da história, a inteligência feminina precisasse entrar não como apêndice moral, mas como eixo civilizacional alternativo.

    Freud não entra no romance como adorno erudito, entra como chave de leitura

    A presença de Freud é especialmente feliz. Historicamente, Freud viveu em Viena praticamente toda a sua vida adulta e se tornou uma das figuras intelectuais decisivas da cidade e do século. Mas o que interessa no romance não é apenas essa adequação contextual. Interessa o modo como Freud funciona como dispositivo hermenêutico. Diante de um romance em que o tempo se dobra, a identidade se bifurca e o real oscila entre travessia física, delírio, sonho, coma e colapso, quem melhor do que Freud para ocupar o papel daquele que pergunta se tudo isso não é também uma cena da mente, uma elaboração, um teatro interno? Quando o livro o aproxima do soldado vindo do futuro, ele não está buscando apenas prestígio de repertório; está convocando uma tradição inteira de suspeita sobre a transparência do eu.

    Isso é decisivo porque impede que a ficção temporal seja lida de modo puramente mecânico. Em “A Interpretação dos Sonhos” (1900), livro que Freud considerava o mais importante de sua obra, ele demonstrou que o inconsciente opera com uma lógica radicalmente distinta da consciência: condensação, deslocamento, representação por imagens, inversão, ausência de negação e de temporalidade linear. O inconsciente, para Freud, é atemporal: nele, o passado não passa, ele retorna, desloca, se disfarça. É precisamente essa lógica que a estrutura narrativa de A Mata H parece mimetizar: não a do sonho como ornamento, mas a do inconsciente como regime de temporalidade alternativo.

    Freud introduziu o conceito de “Wiederholungszwang” (compulsão à repetição), mostrando que o sujeito tende a reeditar traumas não para resolvê-los, mas porque o aparelho psíquico não consegue metabolizar o que foi vivido como excessivo. O romance, ao fazer do passado uma zona de retorno obrigatório e ao tornar impossível a tentativa de reescrevê-lo sem reproduzir outra forma de catástrofe, opera precisamente nessa lógica. Freud, então, é menos um personagem histórico do que um princípio organizador de ambiguidade. Sua presença lembra ao leitor que toda tentativa de dominar o tempo pode ser, ela própria, uma forma de repetição compulsiva.

    O subtexto filosófico: identidade, ordem, caos, livre-arbítrio

    A essa altura fica claro que o romance não pensa apenas a identidade, pensa também a relação entre ordem e caos, entre determinação e ação. Há uma frase recorrente, de sabor quase aforístico, que funciona como senha interna da obra: “A lentidão do justo é um convite ao caos; sua firmeza, ordem eterna.” Ela aparece como se quisesse condensar a obsessão moral do livro: o receio de que, diante do avanço da barbárie, a hesitação ética seja também cumplicidade histórica.

    O problema, porém, é que o romance não entrega essa sentença em ambiente simples. Tudo à sua volta desmente qualquer confiança excessiva na ordem. O mundo do livro é tão instável, tão atravessado por simultaneidades e reflexos, que toda ordem parece provisória, e todo gesto firme parece condenado a produzir efeitos laterais imprevisíveis. Esse atrito é um dos pontos mais sofisticados da obra. Ela parece desejar ordem e, ao mesmo tempo, desconfiar radicalmente dela.

    Nisso ecoa um problema clássico da modernidade política. Thomas Hobbes, em “O Leviatã” (1651), argumentou que somente um poder soberano absoluto pode conter o caos da guerra de todos contra todos, mas instalou, com isso, o germe de todas as tiranias do Estado total. Carl Schmitt, em “O Conceito do Político” (1932), radicalizou essa posição ao definir o político pela distinção amigo/inimigo e reivindicar o estado de exceção como fundamento real da ordem jurídica, formulação que o nazismo depois usou à sua maneira perversa. Hannah Arendt, em “As Origens do Totalitarismo” (1951), diagnosticou precisamente como o esforço de impor ordem total ao real, eliminando o contingente, o plural, o imprevisível, é a marca estrutural do regime totalitário. A Mata H entra nesse debate não pela via do tratado, mas pela via do pesadelo: ao mostrar que toda ordem temporal é necessariamente provisória, ele denuncia, por via negativa, o delírio de quem quer impô-la definitivamente.

    Também por isso a obra roça o problema do livre-arbítrio. Se o tempo é simultâneo, se o sujeito é duplicável, se o passado pode ser interferido por reflexos derivados do futuro, o que sobra da responsabilidade individual? A tradição compatibilista sustenta que liberdade e determinismo não se excluem. O romance parece responder de modo diferente: sobra uma responsabilidade trágica, não soberana. Ninguém ali age fora das forças que o determinam, mas ninguém está inteiramente absolvido por elas.

    A presença do jovem Adolf intensifica esse problema ao limite. O mal, ali, não é uma essência metafísica simples, é uma possibilidade histórica em incubação. O romance nos obriga a olhar para o momento anterior ao monstro consolidado e perguntar, com desconforto: o que exatamente estava sendo formado ali? Um homem? Uma ideologia? Um ressentimento? Ou um vazio apto a ser preenchido pela máquina da história? É a mesma pergunta que Hannah Arendt colocou de outra forma ao cobrir o julgamento de Eichmann: o mal não precisa de demônios, basta a banalidade.

    Crítica ao fundamentalismo: o livro sabe que a barbárie é uma forma de simplificação

    O ponto de partida de A Mata H não é uma guerra entre nações nem um conflito convencional entre Estados. É algo mais perturbador e, infelizmente, mais reconhecível: uma guerra catastrófica desencadeada por um grupo religioso extremista que não conquistou o mundo de fora para dentro, mas de dentro para fora. Essa distinção é central, e o romance a trata com uma lucidez que vai além do thriller de ação.

    O livro denuncia um mecanismo que a história recente tornou familiar: o crescimento por infiltração. O extremismo religioso retratado em A Mata H não chega como exército convencional que cruza fronteiras com tanques. Ele se expande por dentro das sociedades, nas instituições, nas comunidades, nas famílias, nos sistemas de crença já existentes, até atingir massa crítica suficiente para produzir ruptura. É uma conquista que se disfarça de devoção antes de se revelar como dominação. O romance expõe esse processo com a consciência de quem sabe que o perigo mais grave raramente tem a decência de se anunciar.

    O que o livro capta com inteligência é que o fundamentalismo não é apenas violência, é uma ontologia, um modo de organizar o real pela eliminação de tudo que escapa ao regime de sentido único. A pluralidade, a dúvida, a negociação, a coexistência: tudo isso é, para o fanático, contaminação a ser extirpada. Ele não tolera o tempo porque o tempo produz mudança. Não tolera o outro porque o outro é prova viva de que há mais de uma forma de existir. E não tolera a complexidade porque a complexidade exige renunciar à certeza absoluta, que é precisamente o único bem que ele possui.

    Ao projetar esse tipo de força para um futuro em que ela finalmente produz o colapso definitivo, A Mata H faz o que a boa ficção científica sabe fazer melhor do que o jornalismo: leva uma tendência até seu limite lógico. Não prevê o futuro, extrapola o presente. A guerra catastrófica do início do romance não cai do céu, ela é o resultado de um processo longo, gradual e deliberado de expansão silenciosa que ninguém quis ver a tempo. E é exatamente esse horror consumado que obriga os personagens a recuar no tempo em busca de outra saída. Não porque acreditam que o passado seja controlável, mas porque o futuro, tal como está, já foi perdido.

    Regionalismo: o livro acerta ao preferir rugosidade a folclore

    Há outro ponto em que o romance revela autoconsciência: seu regionalismo. Anápolis, Goiânia, o cerrado, a linguagem militar misturada à oralidade local, o humor duro de tropa, a geografia do centro-oeste, a pamonha da Dona Maria… tudo isso comparece com uma aspereza que evita o erro comum de grande parte do regionalismo de vitrine. O livro não tenta “vender” Goiás como exotismo interno nem como repertório pitoresco.

    Ao contrário, usa o chão regional como solo efetivo da imaginação. O centro-oeste não é gracejo, é teatro da devastação, espaço de resistência, lugar estratégico e emocional do romance. Esse é um mérito importante porque impede a obra de cair no tipo de caricatura que transforma o local em número humorístico ou em apêndice folclórico da narrativa principal. O cerrado, inclusive, ganha uma função estética poderosa: produz um contraste particularmente forte com Viena, com a Europa, com o frio e o cinza da guerra reconfigurada. O romance faz o que pouca ficção brasileira de alta combustão se permite fazer: põe o centro-oeste não na margem da história, mas no centro do colapso planetário.

    Isso lembra, em sua audácia centrífuga, o que José Saramago fez com Portugal em “Ensaio sobre a Cegueira” (1995): transformou um espaço periférico no centro absoluto de uma metáfora civilizacional universal. Ou o que Graciliano Ramos fez com o sertão em “Vidas Secas” (1938): não folclore da miséria, mas condição humana exposta em sua nudez mais radical. A Mata H opera numa chave diferente, épica e especulativa, não minimalista, mas partilha com esses romances a recusa de deixar o local ser apenas local.

    Dr.ª Batista e a inteligência feminina como eixo de sentido

    Outro aspecto que o romance merece em reconhecimento pleno é a centralidade da Dr.ª Batista. Ela não é apenas personagem funcional, nem só a cientista que aciona protocolos e viabiliza a máquina. Ela é uma espécie de consciência estratégica do livro, figura em que ciência, autoridade, cuidado truncado e tragédia pessoal se condensam. Em um romance dominado por violência masculina, guerra, bravatas, aviões e figuras históricas de testosterona imperial, a presença dela reorganiza a hierarquia interna da narrativa. É ela quem pensa, antecipa, calcula, insiste. É ela também quem encarna um dos nervos mais melancólicos do livro: a tentativa de enfrentar o colapso do mundo com inteligência, quando a inteligência já parece insuficiente.

    A ligação genealógica com Ada Lovelace não é ornamento. Ada Lovelace escreveu, em 1843, as primeiras anotações sobre a Máquina Analítica de Babbage, reconhecidas hoje como o primeiro algoritmo concebido para ser processado por uma máquina, contribuição que foi sistematicamente subestimada durante décadas por razões evidentes de gênero. A pesquisadora Suw Charman-Anderson, em artigo influente publicado no “The Guardian” (2012), documentou como o apagamento de Ada Lovelace da narrativa da computação não foi acidental, mas estrutural. Ao recuperar essa linhagem, A Mata H faz um gesto de reparação histórica dentro do imaginário especulativo e afirma que a origem do pensamento computacional, eixo da tecnociência contemporânea, tem um rosto feminino que a história fez questão de esconder.

    O “blockbuster” como forma legítima de pensamento

    Talvez a formulação mais precisa para o livro seja esta: A Mata H acredita que “blockbuster” também pode pensar. E isso, num ambiente literário frequentemente desconfiado da escala, do espetáculo e da energia narrativa ostensiva, é refrescante. O romance (ou blockbuster literário) quer o estrondo do cinema de grande orçamento (caças, bombas, perseguições, bunker, confrontos históricos impossíveis, reviravoltas de alta intensidade), mas quer também o subtexto, a ontologia, a filosofia, a provocação histórica. Nisso, ele se aproxima mais de uma linhagem que passa por Umberto Eco em seus momentos mais lúdicos, especialmente em “O Pêndulo de Foucault” (1988), em que erudição e conspiração se retroalimentam em vertigem. Até mesmo lembra Philip K. Dick em suas crises de realidade (“O Homem do Castelo Alto”, 1962; “VALIS”, 1981), por alguns romances de Michael Crichton quando queriam dramatizar uma hipótese técnica de largo alcance (“Jurassic Park”, 1990), e até por certa imaginação tarantinesca do anacronismo histórico (a de “Bastardos Inglórios” (2009)), em que a história é reinventada sem cerimônia porque o delírio especulativo tem mais verdade emocional do que o documentário.

    Poucos livros brasileiros se permitiram essa mistura com convicção. Em geral, ou sacrificam densidade em nome do evento, ou sacrificam energia em nome da legitimidade. A Mata H tenta preservar as duas coisas. O livro brasileiro raramente se autoriza a ser simultaneamente cerebral e pop. Quando o faz, costuma pedir desculpas. A Mata H não pede.

    As reservas: onde o livro precisa de mais disciplina

    Nada disso significa que o romance seja imune à crítica. A primeira reserva diz respeito à dicção. Em vários momentos, a prosa opera em regime quase contínuo de intensidade máxima. Há uma busca insistente por grandiloquência, por impacto, por inflamação verbal. Em doses certas, isso ajuda a criar a atmosfera apocalíptica e operística que o livro deseja. Em excesso, porém, reduz o contraste interno do texto. Quando tudo quer ser ápice, a curva da emoção perde gradiente. Alguns trechos ganhariam muito com mais contenção, mais respiração, mais coragem de deixar a cena produzir impacto sem que a frase precise sempre anunciá-lo. Cormac McCarthy, em “A Estrada” (2006), demonstrou como a sobriedade extrema da prosa pode amplificar, em vez de esvaziar, o horror apocalíptico: a cena nega o estrondo que a situação contém, e essa tensão entre forma e conteúdo é o que apavora.

    A segunda reserva está na administração tonal. O romance alterna guerra, filosofia, humor de quartel, brutalidade histórica, melodrama familiar, misticismo e especulação científica. Na maior parte do tempo, essa mistura é precisamente o que lhe dá personalidade. Mas há trechos em que a transição entre esses registros parece brusca demais, como se o livro ainda estivesse negociando internamente a proporção entre suas naturezas. Isso não compromete o todo, mas às vezes produz uma sensação de desalinhamento rítmico.

    A terceira, mais sutil, é que o romance por vezes confia tanto na força de sua hipótese central que deixa em segundo plano a elaboração mais delicada de algumas subjetividades. Não é um livro desprovido de personagens fortes; é um livro em que as ideias, as engrenagens e os choques históricos frequentemente se impõem sobre a nuance psicológica mais prolongada. Isso não é exatamente um defeito, corresponde à sua vocação épica e especulativa. Mas ajuda a explicar por que a obra impressiona tanto pela visão e um pouco menos, em certos pontos, pela intimidade. Thomas Pynchon, a quem A Mata H de algum modo ecoa em seu apetite enciclopédico, soube em “A Meiosis de 49” (1966) e “O Arco-Íris da Gravidade” (1973) manter o sujeito humano como nervo emocional mesmo dentro da arquitetura mais monstruosa e sistêmica. É um equilíbrio difícil, e nem sempre alcançado.

    No fim, o que permanece é a ambição organizada pelo delírio

    Apesar dessas reservas, o que fica depois da leitura não é a impressão de um livro descontrolado, mas a de um livro perigosamente ambicioso (e “perigosamente” aqui é elogio). A Mata H quer coisas demais para caber no formato mental da resenha protocolar. Quer discutir identidade sem abandonar a ação. Quer pensar o tempo sem abandonar a carne da guerra. Quer usar figuras históricas reais não como bonecos de prestígio, mas como forças em colisão dentro de um mesmo laboratório urbano. Quer transformar Viena num reator da catástrofe moderna e o cerrado numa linha de frente da história mundial. Quer propor uma ciência fictícia tão ousada que por um instante pareça uma descoberta clandestina esquecida entre arquivos militares e hipóteses impossíveis. Quer denunciar o fundamentalismo não apenas em sua versão mais reconhecível, mas como forma geral de simplificação homicida. Quer ainda ser espetáculo, e não tem vergonha disso.

    Talvez esse seja o melhor elogio que se possa fazer ao romance: ele não aceita a divisão preguiçosa entre obra que pensa e obra que arrebata. A Mata H tenta pensar arrebatando. Nem sempre alcança com a mesma precisão tudo o que deseja, mas quase sempre alcança algo mais raro do que a precisão: alcance. Há nele imaginação de alta tensão, repertório potencial, instinto de grande forma e uma convicção pouco comum de que a literatura brasileira ainda pode se autorizar o excesso, o conceito grande, a cena monumental e a hipótese filosófica de longo alcance sem perder sotaque, chão e brutalidade local.

    Em uma paisagem em que tantos romances parecem satisfeitos em ser discretos, A Mata H prefere a imprudência. E às vezes é exatamente da imprudência formal que nasce uma obra com pulsação própria.

    No mínimo, este é um livro único e um manifesto sociopoliticocientífico sem par na história da literatura. Um horror existencialista travestido de ficção científica. Uma maneira “maicombeiada” de dizer ao mundo que literatura também pode ser blockbuster.

  • Clarice (a Lispector, com carinho)

    Clarice (a Lispector, com carinho)

    Transgredi a cela da vida contingente,
    Vaguei no encanto e não me perdi
    Vi, no mundo, um caminhar penitente,
    As iridescentes algemas do agora e aqui

    Vivi mil vidas em meu cárcere de carne,
    Todas escritas sob meu olhar decumbente
    A léxica magia era minha ígnea arte,
    O sopro de vida sobre a morte eminente

    E agora que sou um corpo sem corpo,
    A rima fugaz de uma poesia já lida,
    Embora seja um livre imorredouro

    No etéreo passeio sem volta nem ida
    Se um dia pensei que liberdade era pouco
    Apelido o que sonhava com o nome de vida

  • Pare com o “faz sentido pra você?” nas vendas ou em apresentações!

    Pare com o “faz sentido pra você?” nas vendas ou em apresentações!

    Há uma epidemia barulhenta e — cá entre nós — chata nos pitches de vendas, nas reuniões de pré-venda e nos palcos de convenções corporativas brasileiras. Ela não aparece em relatórios de performance, não é sinalizada pelo CRM e raramente recebe feedback direto do cliente. Mas ela corrói a credibilidade de quem a pratica, e tem nome: é o “faz sentido pra você?” — ou sua versão mais preguiçosa, o simples “faz sentido?”, lançado ao ar como se fosse um cheque em branco de empatia.

    A pergunta se espalharia porque soa bem na superfície. Quem a usa acredita que está sendo consultivo, validando o raciocínio do interlocutor, demonstrando abertura. Mas o que acontece no cérebro de quem a ouve, e o que a neurociência, a psicologia comportamental e a teoria das vendas têm a dizer sobre isso, é quase o oposto do que se pretende.

    O problema começa no cérebro do cliente

    Daniel Kahneman, Nobel de Economia e autor de “Rápido e Devagar” (2011), descreve dois sistemas cognitivos que governam o pensamento humano: o Sistema 1, rápido, automático e heurístico; e o Sistema 2, lento, deliberado e analítico. Uma venda de valor, especialmente em contextos B2B, onde os stakes são altos e os ciclos são longos, exige que o cliente habite o Sistema 2. Que pense. Que avalie. Que conecte a proposta à sua realidade.

    O “faz sentido?” faz o contrário. Ele é uma pergunta de resposta binária — sim ou não — e, como tal, empurra o interlocutor de volta ao Sistema 1. A resposta “sim” sai quase por automatismo, não por convicção. É o mesmo fenômeno que Robert Cialdini documentou em décadas de pesquisa sobre compliance e influência social: quando as pessoas são solicitadas a confirmar algo em um contexto de baixa resistência cognitiva, o “sim” reflexo é extremamente comum e extremamente vazio.

    A conformidade obtida sem compreensão não é engajamento, é apenas ausência momentânea de conflito. Esse é o paradoxo central da pergunta: ela gera a sensação de alinhamento ao mesmo tempo em que impede que o alinhamento real aconteça. O vendedor sai da reunião convicto de que “fez sentido”. O cliente sai sem ter processado nada com profundidade. A objeção que existia e que poderia ter sido trabalhada ficou enterrada sob uma sequência de “sins” reflexos.

    O que o SPIN Selling diagnosticou há 40 anos

    Neil Rackham passou mais de uma década acompanhando 35.000 ligações e reuniões de vendas em 23 países para escrever “SPIN Selling” (1988). Uma de suas descobertas mais contraintuitivas foi que, nas vendas de alto valor, os vendedores de melhor performance fazem menos perguntas no total, mas perguntas muito mais precisas. O modelo que ele sistematizou (Situação, Problema, Implicação, Necessidade de Solução) é uma arquitetura de progressão cognitiva. Cada camada aprofunda o entendimento do cliente sobre sua própria dor antes de apresentar qualquer solução.

    Nenhuma das quatro dimensões do SPIN comporta o “faz sentido?”. Não é uma pergunta de situação, porque não coleta informação. Não é de problema, porque não explora tensão. Não é de implicação, porque não amplia consequências. E não é de necessidade de solução, porque não ancora valor. É, na prática, uma pergunta de conforto: do vendedor, não do cliente.

    Nos palcos: quando a busca por micro-aplausos mata a macro-transformação

    A deformação não é exclusiva das vendas. Quem frequenta o circuito de conferências corporativas — de liderança, marketing, inovação, cultura organizacional — já foi exposto à variante palco do mesmo fenômeno: o palestrante que, a cada dois slides, vira para a plateia e pergunta “faz sentido o que eu tô dizendo aqui, pessoal?” ou o ainda mais artificial “faz sentido? Sim ou não?”.

    Nancy Duarte, consultora de comunicação que trabalhou com Al Gore, Steve Jobs e líderes de dezenas de Fortune 500, argumenta em “Resonate” (2010) que uma palestra poderosa funciona como uma narrativa dramática: ela precisa de contraste entre o que é e o que poderia ser, de tensão real e de momentos de revelação genuína. Pedir confirmação rítmica da audiência é o oposto disso, é substituir tensão narrativa por validação social, trocar profundidade por conforto.

    O efeito é duplamente contraproducente. Primeiro, porque o público entra em modo passivo, pois a pergunta não convida à reflexão, convida ao reflexo. Segundo, porque quem já ouviu isso centenas de vezes desenvolve uma resistência silenciosa ao próprio bordão: o “faz sentido?” virou marca de palestrante genérico, de conteúdo sem originalidade, de quem aprendeu a parecer engajado sem de fato engajar.

    O “não” produtivo: o que Chris Voss ensina sobre o caminho oposto

    Ex-negociador do FBI e autor de “Negocie Como Se Sua Vida Dependesse Disso” (2016), Chris Voss propõe uma inversão radical da lógica convencional de vendas: em vez de buscar o “sim”, busque o “não”. Isso parece contraintuitivo, mas o raciocínio é sólido: o “sim” reflexo não comprova nada. É confortável, mas vazio. O “não”, por outro lado, obriga as duas partes a articularem o que, de fato, está em jogo.

    Perguntas que permitem o “não” criam segurança psicológica. Quando o cliente sente que pode discordar sem constrangimento, ele começa a revelar suas objeções reais, que são, justamente, o material com o qual uma venda consultiva de verdade é construída. O “faz sentido?” bloqueia esse canal. Sinaliza inconscientemente que a única resposta aceitável é a afirmativa, o que silencia o cliente exatamente nos momentos em que sua voz mais importa.

    PNL e a gramática sensorial: cada cliente processa de um jeito

    A Programação Neurolinguística — cujos fundamentos foram sistematizados por Richard Bandler e John Grinder, e popularizados em obras como “Use Sua Mente Para Mudar Sua Vida” (1985) — parte do princípio de que as pessoas têm sistemas representacionais primários: visual, auditivo e cinestésico. A linguagem que usamos revela e ativa esses sistemas. “Faz sentido” é uma expressão predominantemente auditiva: faz sentido, soa bem, ressoa.

    Mas um cliente de perfil visual precisa ver. Um cliente cinestésico precisa sentir. Usar a mesma expressão universal para todos os perfis não é empatia, é indiferença disfarçada de padronização. Um profissional que lê o perfil do cliente adapta a linguagem em tempo real: para o visual, “você consegue enxergar como isso se encaixa no seu contexto?”; para o cinestésico, “isso te traz segurança para o próximo passo?”. O “faz sentido?” é, nesse registro, um código que atinge (se atingir, já que é uma muleta retórica chata de doer) um perfil e passa longe dos outros dois.

    O que usar no lugar dessa muleta?

    A alternativa não é eliminar perguntas de validação, é substituí-las por perguntas que realmente trabalhem. Eis alguns princípios e exemplos concretos:

    • Perguntas que revelam prioridades: “O que nessa proposta mais chamou sua atenção?” abre espaço para o cliente articular o que importa para ele, não para você.
    • Perguntas de projeção: “Como você se imagina usando isso daqui a seis meses?” ativa o Sistema 2 de Kahneman e força o cliente a se ver como usuário da solução, não apenas avaliador dela.
    • Perguntas de risco: “Quais pontos você ainda vê como um risco ou uma incógnita?”, seguindo a lógica de Voss, abre o canal para o “não” produtivo e revela objeções que jamais emergiriam após um “faz sentido?”.
    • Perguntas de implicação (SPIN): “Se esse problema continuar sem solução por mais um ano, qual é o impacto para a sua operação?” move a conversa de funcionalidades para consequências, que é onde a decisão real acontece.
    • Perguntas de especificidade sensorial (PNL): Adapte ao perfil. “Você consegue visualizar esse processo no dia a dia da sua equipe?” para o visual; “Isso te passa segurança suficiente para avançar?” para o cinestésico.

    A raiz do problema: confiança, não técnica

    No fundo, o “faz sentido?” é um sintoma, não uma causa. Ele emerge quando o profissional não tem confiança suficiente na qualidade do que acabou de dizer e busca, de forma inconsciente, a validação da audiência para se sentir seguro. É o equivalente verbal de olhar para os slides enquanto apresenta: um sinal de que a relação com o próprio conteúdo ainda não é de domínio.

    Matthew Dixon e Brent Adamson, em “A Venda Desafiadora”, documentaram que os vendedores de melhor performance não são os mais amigáveis ou os mais validadores, são os que ensinam algo novo ao cliente, que provocam, que recontextualizam a realidade do interlocutor antes de apresentar qualquer solução. Essa postura de “desafiador” é incompatível com a busca permanente por micro-aprovação. Você não pode simultaneamente conduzir e pedir permissão para conduzir.

    Perguntar “faz sentido?” a cada dois minutos é como um maestro que para a orquestra no meio da sinfonia para perguntar se a plateia está gostando. A música perde o fio. O maestro perde a autoridade. E a plateia perde a paciência.

    Conclusão: a era da conversação real

    Vender e persuadir, em alto nível, são atos de condução, não de validação. O profissional que domina esse jogo não precisa de bordões para verificar se está se saindo bem: ele lê o cliente, ajusta em tempo real, faz perguntas que abrem o pensamento ao invés de fechá-lo. Ele sabe que o silêncio reflexivo após uma boa pergunta vale mais do que cinquenta “sins” reflexos após um “faz sentido?”.

    A comunicação de alto impacto exige precisão cirúrgica na escolha das palavras, leitura aguçada do interlocutor e coragem para habitar o desconforto das perguntas que realmente importam, aquelas que revelam o que o cliente ainda não sabe que precisa dizer. Isso não se aprende repetindo scripts. Aprende-se com escuta ativa, com estudo sério e com a humildade de perceber que o vício verbal mais perigoso é exatamente aquele que soa mais empático.

    E aí? Faz sentido pra você?

  • Sonhador Nebuliforme

    Sonhador Nebuliforme

    Incendeie-me, ó gênese de tudo que há
    Reacenda a chama que só você alimenta
    Você, que faz a existência brilhar
    Faça de mim um estandarte que te ostenta
    Nomeie-me cavaleiro, sob o seu luar,
    Guerreiro noturno do lirismo que reinventa
    No doce mundo em que basta sonhar
    Na utopia dos tempos que o passado isenta

    Afogue-me nesse oceano de verdades
    E ressuscite-me com a valia de seu nome
    Leve-me ao temido olho da tempestade
    Onde a coragem nasce e o medo se esconde
    Lute comigo contra minha animalidade
    Fonte do mal que a mim mesmo consome
    Matemos também minha vã humanidade
    Que alimenta meu ego, enquanto morre de fome

    Meio morto nesse claustrofóbico nada
    Vivendo a angústia que de mim se enfada
    Esperando te encontrar, sem estar vendo
    Sou pétala destinada em busca do vento

    O bramido carmesim ecoa em meus lábios
    Enquanto sussurro por sua manifestação
    A poderosa presença, o êxtase dos sábios
    A magia infinita que habita um coração
    Deixe-me entrar em seus versos fantásticos
    Metamorfosear-me em sua inexatidão
    Inebriar-me, dançando em seus cenários
    A canção dos eternos que vêm e não vão

    Personifique-se a mim, ó sombra iluminada
    Que meus olhos vejam o que agora sinto
    Para que tudo se vá e o infinito se faça
    No agora que é o que eu apenas pressinto

    Eis o chamado do receptáculo
    O clamor de quem já se sentiu
    Coadjuvante desse espetáculo
    Um anti-herói que nunca caiu

    Consegui alcançar o graal das deidades?
    Será que pude o imponderável transpor?
    Te encontrar é minha mais forte verdade
    É contigo que falo, tão desejado amor

  • Hellblade: O Jogo Que Escancara a Loucura Como Nenhuma Série da Netflix Teve Coragem

    Hellblade: O Jogo Que Escancara a Loucura Como Nenhuma Série da Netflix Teve Coragem

    Que jogo perturbador (e necessário). Atravessar a jornada de Senua é como andar descalço sobre cacos de vidro dentro da própria mente. Em tempos em que o discurso sobre saúde mental é, felizmente, cada vez mais presente, poucos jogos se atrevem a transformar o sofrimento psíquico em elemento estruturante e não apenas em pano de fundo decorativo. Hellblade: Senua’s Sacrifice, da Ninja Theory, não só se atreve: mergulha de corpo inteiro na insanidade para emergir com um dos enredos mais visceralmente humanos da última década.

    A construção da narrativa não depende de personagens secundários para explicar a protagonista, tampouco utiliza clichês visuais para representar o transtorno mental, como os flashes de luz vermelha, a câmera trêmula, o filtro dessaturado que o cinema de terror nos acostumou a usar como atalho para a “loucura”. Aqui, a mente é o mapa, o delírio é a estrada, e o controle está, ironicamente, nas suas mãos. William James, ao fundar a psicologia moderna, propôs que a consciência não é uma coisa, mas um processo, um fluxo. Hellblade transforma esse fluxo em gameplay. E às vezes ele transborda.

    Entre o delírio e a beleza crua: a imersão como experiência liminar

    Apesar de não ser um lançamento recente, não consigo deixar de falar sobre esse jogo que tanto mexeu comigo (um dia conto o porquê). Hellblade continua sendo um tapa estético, narrativo e filosófico na cara de quem ainda acha que videogame é entretenimento descompromissado. Aqui não há espaço para o unívoco. O que se vê e se ouve está sempre sob o risco da interpretação distorcida, da alucinação sutil, do delírio sensorial.

    A experiência de jogo, pensada em parceria com neurocientistas e pessoas com histórico de transtornos mentais, cria uma imersão que não quer ser apenas “realista”, mas desconfortável, estranha, quase sacramental, e aqui o adjetivo não é excessivo. O antropólogo Victor Turner, ao estudar rituais de passagem em culturas tradicionais, cunhou o conceito de “liminaridade”: o estado do iniciado que já cruzou o limiar do mundo anterior mas ainda não chegou ao seguinte, suspenso num entre-lugar sem regras, sem identidade fixada. Jogar Hellblade é habitar esse estado. Você nunca sabe, em momento algum, se o que está vendo é real dentro do universo do jogo. Essa incerteza não é bug, é o jogo em si.

    Como um poema de Sylvia Plath renderizado em Unreal Engine, Hellblade não permite distração. Cada detalhe visual, cada sussurro binaural, cada textura sonora parece querer arrancar a pele do jogador para que este se descubra por dentro. A jogabilidade exige escuta, não apenas a dos ouvidos, mas a escuta interna que Freud chamava de “atenção flutuante”: aquela que, paradoxalmente, capta mais quando menos força o foco.

    Senua: arquétipo, anti-heroína e espelho

    Senua é uma guerreira celta com traços de mitologia nórdica e celta entrelaçados. A Hel da cosmogonia nórdica, a deusa do reino dos mortos, ressoa diretamente no destino que Senua tenta reverter. Mas ela é também a figura brutalmente humana de quem tenta manter a sanidade debaixo de um mundo em ruínas internas e externas.

    O que em outros jogos seria fraqueza ou obstáculo, aqui se torna força narrativa. As vozes internas não são apenas efeitos sonoros: são presenças, personagens, oráculos, armadilhas. Constroem tensão, revelam nuances, sabotam o conforto do jogador. O jogo não te conduz, ele te interroga o tempo todo.

    Carl Jung distinguia entre a persona, a máscara social que apresentamos ao mundo, e a Sombra, o conjunto de aspectos que reprimimos e projetamos para fora. Senua não tem persona. Ela foi despida de todas as máscaras antes que o jogo sequer começasse. O que vemos é pura Sombra em movimento, e o desconforto que isso gera no jogador é preciso: porque reconhecemos, naquele espelho quebrado, fragmentos de nós mesmos que preferíamos não ver.

    Senua está para o mundo dos games assim como Ofélia está para a literatura: perturbadora, bela, trágica e absolutamente real na sua dilaceração. Mas, diferente de Ofélia, que Shakespeare confinou ao silêncio e à água, Senua luta. Sua luta não é heroica porque vence monstros, mas porque é travada sem aplauso, sem audiência, com dores para além da carne.

    A estética do desconforto: som, imagem e corporeidade

    Graficamente impecável, Hellblade beira o fotorrealismo sem sacrificar a poesia visual. A atuação de Melina Juergens (que, convém lembrar, era editora de vídeo da Ninja Theory antes de ser escalada para o papel, numa escolha que ela mesma descreve como aterrorizante) confere a Senua uma humanidade inquietante. Há dor em cada movimento, cada respiração, cada olhar perdido no vazio.

    A trilha sonora e os efeitos binaurais — projetados para serem ouvidos obrigatoriamente com fones de ouvido — elevam a experiência a um nível quase ritualístico. David Lynch disse que “som é metade da imagem”, e Hellblade parece ter absorvido isso como mandamento. Mas vai além: o áudio binaural não apenas ambienta, ele localiza as vozes no espaço tridimensional ao redor da cabeça do jogador, tornando a experiência de alucinação auditiva algo próximo ao que a neurociência descreve em casos de psicose real. A sinestesia é desconcertante. Jogar Hellblade é calar o mundo externo para ouvir o barulho das próprias rachaduras.

    Há também uma tradição visual aqui que vale nomear: a estética de Hellblade deve algo ao expressionismo alemão, às distorções de “O Gabinete do Dr. Caligari” (1920), às sombras oblíquas que externalizam estados interiores. A loucura, no expressionismo, nunca é apenas do personagem: ela contamina o espaço, a luz, a geometria do mundo. Hellblade opera exatamente assim.

    Psicose sem clichê — e sem condescendência

    Do ponto de vista da psicologia clínica, o jogo oferece um retrato metafórico, mas incrivelmente respeitoso, das experiências de quem convive com transtornos psicóticos. Alucinações auditivas, delírios paranoides, dissociação da realidade: tudo é apresentado com uma sobriedade rara no universo pop. Não há glamour, nem vitimização.

    A psicose aqui não é gênese de superpoderes, como nos X-Men, nem mera fragilidade trágica, como em tantos filmes de Oscar que transformam o sofrimento psíquico em espetáculo consumível. É um dado da existência. R. D. Laing, psiquiatra escocês cuja obra “A Política da Experiência” (1967) revolucionou a psiquiatria ao propor que a psicose pode ser uma resposta coerente a um mundo incoerente, teria reconhecido em Senua algo familiar: não uma “louca”, mas alguém cuja percepção foi moldada por trauma, perda e um ambiente que não soube — ou não quis — sustentá-la.

    A equipe consultou psiquiatras, psicólogos e pessoas diagnosticadas com esquizofrenia para moldar a experiência de forma ética e simbólica. Isso não é apenas relevante. É revolucionário, especialmente num mercado que ainda usa a figura do “psicopata” como sinônimo de vilão.

    Um retrato igualmente brutal e belo dessa realidade pode ser encontrado em “Vidas Divididas” (Divided Minds), de Pamela Spiro Wagner e Carolyn S. Spiro, duas irmãs gêmeas, uma diagnosticada com esquizofrenia, a outra psiquiatra, narrando em vozes alternadas a complexidade de viver e conviver com o transtorno. A obra nos lembra que a loucura é menos sobre distúrbio e mais sobre sobrevivência, amor e o esforço diário de construir sentido onde o sentido insiste em se desfazer. Hellblade habita esse mesmo território.

    John Forbes Nash, matemático com esquizofrenia que inspirou o filme Uma Mente Brilhante

    Para quem é este jogo, afinal?

    Hellblade: Senua’s Sacrifice é para quem quer mais do que derrotar chefões e coletar itens. É para quem aceita sair do jogo menos seguro do que entrou. É para quem entende que o medo e a coragem muitas vezes partilham o mesmo quarto escuro.

    É, também, para quem acredita que a empatia não é um sentimento espontâneo, mas uma capacidade que se treina e que a arte, quando honesta o suficiente, é um dos melhores ginásios para esse treino. Simone Weil escreveu que a atenção é a forma mais rara e pura do amor. Hellblade exige atenção total. E talvez seja isso que ele nos ensina, no fim: que prestar atenção à dor do outro, mesmo que simulada, mesmo que mediada por um controle e uma tela, é já um começo de humanidade.

    O que nos torna humanos não é a lucidez plena, mas a forma como dançamos nas ameias da loucura.

  • Hoje é o Último Dia do Resto da Sua Vida: punk, sobrevivência e a não-catarse

    Hoje é o Último Dia do Resto da Sua Vida: punk, sobrevivência e a não-catarse

    Ler a graphic novel de Ulli Lust é ser tragado por uma crônica de brutalidades e afetos dilacerados, um romance de formação onde a formação nunca se completa. Não há amadurecimento no sentido tradicional, tampouco aquele “crescimento” que a literatura gosta tanto de aplaudir, e que desde o Bildungsroman alemão, de Goethe a Thomas Mann, nos acostumou a esperar como recompensa por acompanhar um protagonista até o fim. O que há aqui é a exposição nua de uma juventude que se recusa a obedecer a qualquer roteiro civilizatório: uma não-catarse, ou melhor, uma anticatarse: porque Aristóteles previa a purgação das emoções como função da tragédia, e Lust não purga nada. Ela acumula. Ela infecta.

    E como poderia ser diferente? A protagonista e autora, que decide atravessar a Europa à deriva, não está em busca de autoconhecimento ou transcendência, como os beatniks de Kerouac. Não há aqui o mito da estrada como metáfora redentora. Não há o “Na Estrada” que, no fundo, ainda é uma odisseia masculina e romantizada do movimento como liberdade. Há apenas a estrada como realidade, e ela é poeira, suor, fome, estupro e, paradoxalmente, liberdade. Uma liberdade que não redime, não conclui, não justifica. Simplesmente existe.

    O traço expressivo de Ulli Lust reforça isso: não quer ser bonito, quer ser verdadeiro. E é. Feio, rude, honesto, tal como a vida, sabe? Há algo de Egon Schiele nessa recusa estética à beleza confortante, nessa insistência em desenhar o corpo humano em sua precariedade, em sua exposição, sem a mediação tranquilizadora da idealização.

    Juventude sem aprisco: exílio voluntário ou fuga desesperada?

    É tentador (sempre é) interpretar trajetórias como a de Ulli através da ótica da fuga. Afinal, sair de casa aos dezessete anos, cruzar fronteiras sem dinheiro, comer restos, dormir ao relento, submeter-se a perigos… tudo isso parece gritar: “ela fugiu”. Mas será? Ou terá ela recusado o aprisco? O abrigo seguro, acolchoado, onde as instituições moldam corpos e mentes para que obedeçam, calem, se acomodem.

    Aqui vale trazer Michel Foucault, não como ornamento teórico, mas como lente legítima: as instituições que Lust recusa (a família, a escola, o Estado que exige documentos e endereços) são, na análise foucaultiana, dispositivos de controle que operam precisamente pela normalização dos corpos. Ao se lançar à estrada sem documentos, sem dinheiro, sem pertencimento, Ulli Lust não desaparece do poder, ela o enfrenta em sua forma mais crua, a violência direta, sem a mediação burocrática que o torna palatável. O estupro que sofre não é uma aberração no sistema, é o sistema sem máscara.

    Recusar o aprisco, portanto, não é um ato passivo, nem simplesmente reativo. É uma afirmação radical que lembra o conceito deleuziano de “linha de fuga”, não uma fuga de algo, mas um movimento em direção a um devir que as estruturas dominantes não conseguem capturar. Prefiro o desabrigo ao conforto condicionado. Prefiro o risco à segurança entorpecente. Prefiro a possibilidade de não voltar viva à certeza de nunca ter vivido de fato.

    E aí reside a potência política desta obra: não na denúncia direta ou panfletária, mas na simples e corajosa recusa.

    O corpo como estrada e como ruína

    Poucos livros, e menos ainda graphic novels, ousaram ir tão longe na exposição do corpo como espaço narrativo total. Não é só sobre sexo, embora ele esteja ali, despudorado e, por vezes, brutal. É sobre como o corpo se converte no único meio de troca, no único abrigo possível, no único documento válido.

    Nesse sentido, Hoje é o Último Dia do Resto da Sua Vida dialoga — sem o saber ou sem precisar saber — com a tradição das narrativas de mulheres que escrevem o corpo como território político: de Anaïs Nin, que fez do erotismo uma cartografia da subjetividade feminina, a Virginie Despentes, que em “Teoria King Kong” transformou a experiência do estupro e da marginalidade em manifesto. Lust está nessa linhagem, mas sem o enquadramento teórico de Despentes e sem o lirismo de Nin. Ela é mais crua do que ambas e, talvez, justamente por isso, mais difícil de digerir.

    Ulli Lust desenha a si mesma como quem se escreve com uma navalha: cada linha é uma cicatriz. Seu corpo é passaporte e prisão, território e ruína. Na ausência de dinheiro, de casa, de proteção, o corpo é o que resta e o que sobra. Ele circula, se oferece, se impõe e se esgota.

    Mas, ao contrário do que o moralismo poderia sugerir, não há aqui espaço para o vitimismo fácil. A narrativa é frontal, sem ornamentos, recusando qualquer sentimentalismo — o que a aproxima, na postura ética, do jornalismo literário de Joan Didion: “Nós nos contamos histórias para viver”, escreveu Didion, mas Lust parece nos dizer que algumas histórias recusam ser contadas para viver. Existem apenas para atestar que se viveu.

    Arte que não quer ser consolo: o livro como desafio

    É comum que livros sobre juventudes “perdidas” tentem, ao final, oferecer alguma forma de consolo: uma lição aprendida, um caminho encontrado, uma redenção, o momento catártico que Aristóteles prometeu e que o mercado editorial transformou em fórmula. Ulli Lust não entrega nada disso. Ao fim, resta o incômodo. E ele é, talvez, o mais necessário dos sentimentos.

    A arte aqui não é aprisco nem antídoto. Ela é — e aqui o título deixa de ser apenas poético para se tornar filosófico — um lembrete existencial da tradição que vai de Epicuro a Camus: não há amanhã garantido, não há sentido que nos seja dado de fora, não há roteiro. O existencialismo sartreano diria que a existência precede a essência, que nos tornamos o que somos pelo que escolhemos fazer. Lust faz uma versão punk e feminina disso, sem o conforto da filosofia de salão.

    O título já avisa: hoje é o último dia do resto da sua vida. Não amanhã. Não depois. Não quando você finalmente encontrar estabilidade emocional, financeira ou espiritual. Hoje. E ponto.

    O que resta, então?

    O incômodo, o desconforto, a lembrança de que muitos de nós aceitamos o aprisco e seguimos a vida sem sequer perguntar se poderíamos ter escolhido o desabrigo.

    Fechar essa graphic novel não é um alívio, é um chamado. Ou talvez, para alguns, um alerta. Porque sim, talvez o maior risco de todos seja perceber que a segurança é uma ficção confortável, mas no fim tão ilusória quanto qualquer mapa que pretenda conter a vastidão imprevisível da existência humana. Borges, que adorava mapas que confundiam o território com a representação, aprovaria a metáfora.

    Recomendo essa leitura indigesta.

  • Grimpow e o Brilho da Sabedoria: Uma Jóia Esquecida da Literatura Fantástica

    Grimpow e o Brilho da Sabedoria: Uma Jóia Esquecida da Literatura Fantástica

    Provavelmente, ainda que seja um ávido leitor, você nunca ouviu falar de Rafael Abalos, o que é um erro que deve procurar corrigir imediatamente. O autor de uma obra que chegou a ser comparada com a opus magnum de Umberto Eco, “O Nome da Rosa” (1980), não deve ser ignorado, tampouco esquecido. E a comparação não é gratuita: assim como Eco construiu seu romance policial medieval sobre as ruínas simbólicas de Aristóteles e dos manuscritos proibidos de uma abadia beneditina, Abalos ergue o seu sobre os pilares igualmente sedutores da alquimia e da Ordem do Templo.

    Advogado e docente, Abalos deu forma a esse seu terceiro romance após uma viagem e longas conversas com amigos que também revelavam paixão inconteste pelo medievo e suas fantásticas histórias e mitos. Grimpow e o Caminho Invisível — também chamado de Grimpow, o Eleito dos Templários em algumas edições — é um romance que se erige sob mistérios e lendas fascinantes. Não um romance qualquer, eu já aviso.

    Um enredo acima da média, apesar de parecer mais do mesmo

    Grimpow é uma criança — ou adolescente? — proscrita que vive à companhia de seu amigo salteador Dúrlib e que, durante uma caçada para conseguir alimento, encontra o corpo morto de um ginete estirado sobre a neve. Antes de evanescer diante dos olhos assustados dos dois amigos, como brumas diante do nascer do sol, o cavaleiro morto deixa para eles uma pedra fantástica, um selo, uma adaga, moedas de ouro e uma carta cifrada. Este é o mote para as aventuras e tragédias que Grimpow enfrentará para desvendar a enigmática mensagem, para entender a magia por trás da chave dos mistérios que é a pedra que agora carrega no peito e para encontrar o Caminho Invisível e o segredo dos sábios.

    A premissa remete, inevitavelmente, ao Parsifal medieval — o jovem ingênuo que, por acidente do destino, se vê enredado numa demanda maior do que si mesmo — e há ecos claros da Demanda do Santo Graal na jornada de Grimpow: a busca por um objeto de poder oculto, guardado por uma ordem secreta, permeada por provações morais e intelectuais. Abalos, no entanto, retrabalha esse arquétipo sem se render ao lugar-comum. Diferentemente do herói tolkieniano — que cresce em poder físico e moral para enfrentar o mal — Grimpow cresce em inteligência e conhecimento, o que torna sua trajetória mais socrática do que épica.

    Embora o protagonista seja apenas um menino, a trama está completamente incólume à ingenuidade e sutilezas que se esperaria para um herói mirim. Se você torcer o volume de páginas, é perigoso escorrer sangue do livro. Grimpow vê coisas que fariam com que qualquer criança, adolescente — e mesmo um adulto — de nossa asséptica realidade entrasse num profundo TEPT, mas que não o debilitam ao ponto de fazer com que abandone a missão que o adotara. Com um assombroso poder dedutivo, ele fica ainda mais arguto após tomar posse da pedra, a qual parece “iluminar” sua inteligência, numa clara alusão ao lapis philosophorum da tradição alquímica, a pedra filosofal que não transforma apenas metais vis em ouro, mas também o espírito do portador.

    Personagens memoráveis

    Outros personagens fazem com que você se apaixone completamente pela trama. Dúrlib, o “tutor” proscrito que inicia as aventuras com Grimpow, tem algo do Sancho Pança cervantino, a lealdade rústica e genuína que contrasta com o idealismo do companheiro mais jovem. Os monges da Abadia de Brínkdum, cada qual com uma importância fundamental para o desdobramento da história, lembram a galeria de eclesiásticos que povoam O Nome da Rosa: personagens que guardam o conhecimento como quem guarda uma chama, com devoção e com medo de que ela queime.

    Salietti de Estaglia, cavaleiro que se propõe a seguir Grimpow em sua jornada e que guarda um passado profundamente ligado ao presente do menino, carrega aquele tipo de melancolia nobre que encontramos em figuras como Lancelot, o guerreiro que serviu a causas maiores do que si mesmo e carrega o peso disso. Já Búlvar de Góztell, inquisidor sanguinário que faz o escarcéu para conseguir o segredo dos sábios a mando do Papa — aliando-se ao Barão Figüeltach de Vokko e ao Rei da França —, é um antagonista que rivaliza com o Jorge de Burgos de Eco em implacabilidade, com a diferença de que Búlvar representa não o fanatismo intelectual, mas o fanatismo do poder.

    Além deles, temos a Weienell, mulher de fascinante beleza, filha de um dos sábios e importante aliada às traduções simbólicas que Grimpow tem de fazer nos “finalmentes” do enredo. Ela ocupa, na estrutura narrativa, um papel próximo ao que Camille Paglia chamaria de femme fatale redimida: a mulher que detém um saber proibido e o usa não para destruir, mas para iluminar.

    Uma fantasia embebida pelo puro suco da semiótica e pelo uso impecável de figuras de linguagem

    Assim como O Nome da Rosa, Grimpow conta com um vasto repertório semiótico que ajuda a construir os enigmas e códigos que perpassam toda a história, desde os textos criptografados, passando pelos puzzles que os heróis encontram pela frente, até os símbolos que norteiam o Caminho Invisível e a sociedade secreta dos sábios, a Ouroboros. O próprio nome da sociedade é um signo poderoso: a Ouroboros, a serpente que devora a própria cauda, é um dos símbolos mais antigos da humanidade, presente desde o Egito faraônico e sistematizado pelos alquimistas medievais para representar a eternidade, o ciclo do conhecimento que jamais se encerra. Abalos não escolheu esse nome por acidente.

    Todo ponto decisivo da história é cerceado por quebra-cabeças linguísticos e lógicos muito bem arquitetados, que lembram os enigmas propostos por Raymond Lull e pelos cabalistas medievais, a ideia de que a linguagem não é apenas um veículo de comunicação, mas um mapa do cosmos. Em termos peirceianos, os signos em Grimpow funcionam nos três registros: o ícone, o índice e o símbolo se entrelaçam de tal forma que o leitor, inevitavelmente, se vê compelido a ajudar os protagonistas a encontrarem a solução de cada desafio.

    Não bastasse a bela estruturação criada por Abalos para dar fluidez ao saboroso fado do herói, a obra goza de uma maravilhosa coleção de figuras de linguagem que a fazem parecer uma verdadeira odisseia poética. Um texto banhado no ouro das metáforas, o que é, por si só, uma metalinguagem elegante numa história sobre alquimia.

    Definitivamente, diferente e apaixonante

    Apesar de lembrar a narrativa dos contos de cavalaria — de Chrétien de Troyes a Wolfram von Eschenbach —, a obra possui a dinâmica de romances modernos. Chega a ser romântico, mas de forma alguma pode ser considerado pedante ou melífluo demais. Ao contrário da maioria dos épicos que temos visto serem lançados atualmente, Grimpow abre mão da receita dragão/trono/guerra/amoricos para nos fazer refletir sobre a importância do conhecimento e o perigo da religiosidade cega (um tema que ecoa tanto nas Epistulae morales de Sêneca quanto no projeto iluminista que viria séculos depois). Tanto que, muitas das vezes, o protagonismo se transfere do personagem para o tema ou a trama.

    Não é mais um livro sobre cavaleiros, donzelas, dragões e a noção mística de magia, mas um elogio à magia que é deter o conhecimento, no melhor espírito do Sapere aude kantiano, o convite à coragem de pensar por conta própria. A tradução de Luís Carlos Cabral é fabulosa, conseguindo manter a beleza e os signos presentes na versão original, em espanhol. Li a primeira edição, pela Ediouro, cuja capa é a mais bonita na minha opinião.

    É bem provável que você, que sofre da Síndrome de Westeros, não se interesse muito por um romance menos afortunado midiaticamente. Garanto, porém, que ler Grimpow te trará uma nova luz acerca deste tipo de literatura e, talvez, te faça perceber que o medievo que você tanto ama nunca foi sobre tronos e batalhas, mas sobre o que os homens foram capazes de buscar, esconder e morrer para preservar: o conhecimento.